**Lead**
O desenvolvimento de biorrepositórios no Brasil surge como uma ferramenta promissora para personalizar a prevenção do câncer no Sistema Único de Saúde (SUS). A iniciativa, que reúne amostras biológicas e informações clínicas e genéticas de pacientes, permite identificar padrões populacionais e fatores de risco específicos da população brasileira, abrindo caminho para estratégias preventivas mais eficazes e menos onerosas para o sistema público. Embora ainda em fase de implementação, especialistas apontam que a integração desses bancos de dados ao SUS pode transformar a abordagem da doença, que é a segunda principal causa de morte no país.
**Contexto**
Biorrepositórios são coleções organizadas de materiais biológicos humanos — como sangue, tecidos, DNA e RNA — associados a dados clínicos, epidemiológicos e, em muitos casos, genômicos. Eles já são utilizados em países desenvolvidos para pesquisas translacionais, permitindo que cientistas correlacionem marcadores biológicos com a incidência de câncer e a resposta a tratamentos. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer (INCA) e a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) mantêm biorrepositórios de pesquisa, mas sua capilaridade no SUS ainda é limitada.
A personalização da prevenção baseia-se na identificação de variantes genéticas associadas a maior risco de desenvolvimento de tumores hereditários, como os de mama, ovário, próstata e colorretal. Com um biorrepositório robusto e representativo da diversidade genética brasileira — marcada por intensa miscigenação — seria possível calibrar os protocolos de rastreamento para grupos de maior risco, evitando exames desnecessários e concentrando recursos em quem mais precisa. Dados do Ministério da Saúde indicam que cerca de 70% dos casos de câncer no Brasil são diagnosticados em estádios avaçados, quando as chences de cura diminuem. Um sistma de preveção baseado em perfis genéticos poderia reverter este chenário.
A Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) e as resoluções do Conselho Nacional de Saúde (CNS) regem a criação e o uso de biorrepositórios no Brasil, exigindo consentimento informado e garantia de anonimização. Ainda assim, desafios éticos e logísticos persistem: a infraestrutura de armazenamento, a capacitação de profissionais e a integração com os sistmas de informação do SUS são barreiras que precisam ser superadas para que a personalização se torne realidade clínica.
**Análise**
A adoção de biorrepositórios para prevenção personalizada do câncer vai além da tecnologia: ela representa uma mudança de paradigma na saúde pública brasileira. Atualmente, a prevenção no SUS é baseada em diretrizes universais — como a idade para mamografia ou o uso de sangue oculto nas fezes — que não levam em conta a heterogeneidade genética ou o histórico familiar. Um sistma baseado em biorrepositórios permitiria que o sistema de saúde identifique subpopulações com risco elevado e ofereça intervenções específicas, como quimioprevenção ou vigilância reforçada, antes mesmo do surgimento dos primeiros sintomas. Isso poderia diminuir a incidência de diagnósticos tardios e reduzir custos com tratamentos complexos, que consomem parcela significativa do orçamento do SUS — estima-se que o câncer represente cerca de 20% dos gastos públicos com doenças crônicas.
Outro ponto relevante é o potencial de pesquisa translacional. Com um biorrepositório nacional e representativo, cientistas brasileiros poderiam conduzir estudos de associação genômica ampla (GWAS) específicos para a população local, identificando fatores de risco ambientais e genéticos até então desconhecidos. Isso não só fortaleceria a produão científica do país, como também permitiria o desenvolvimento de painéis de risco adaptados à realidade brasileira, em vez de depender de dados estrangeiros, que muitas vezes não refletem a diversidade local. A cooperação entre universidades, institutos de pesquisa e o Ministério da Saúde é essencial para que essas amostras sejam coletadas de forma ética e utilizadas com transparência.
Entretanto, a implementação enfrenta obstáculos. A criação de um biorrepositório de alcance nacional demanda investimento contínuo em infraestrutura de armazenamento a baixas temperaturas, softwares de gerenciamento e pessoal especializado. Além disso, a adesão da população depende de campanhas de esclarecimento sobre a importância da doação de amostras para pesquisa, respeitando a autonomia e a privacidade. Experiências internacionais, como o UK Biobank no Reino Unido e o All of Us Research Program nos Estados Unidos, mostram que a participação voluntária em larga escala é viável quando há confiança no uso dos dados. No Brasil, a confiança nas instituições públicas ainda é um desafio, mas exemplos de sucesso no rastreamento neonatal e na vacinação indicam que é possível mobilizar a sociedade para causas de saúde coletiva.
Do ponto de vista regulatorio, a ANVISA e a Conep (Comissão Nacional de Ética em Pesquisa) têm papel central na aprovação e supervisão dos biorrepositórios. A recente atualização da resolução sobre armazenamento de material biológico humano (Resolução CNS n° 510/2016 e n° 466/2012) já prevê a criação de biorrepositórios institucionais, mas sua aplicação prática ainda é heterogênea entre os estados. Uniformizar os processos de coleta, armazenamento e compartilhamento de dados é uma prioridade para que a personalização da prevenção não se torne privilégio de poucos centros de excelência, mas sim uma política pública ampla.
**Fontes**
Instituto Nacional de Câncer (INCA) — informações sobre incidência e prevenção de câncer no Brasil. Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) — dados sobre biorrepositórios e pesquisa genômica no país. Ministério da Saúde — diretrizes do SUS para prevenção oncológica. Conselho Nacional de Saúde (CNS) — resoluções sobre ética em pesquisa com seres humanos. Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA) — regulamentações sobre armazenamento de material biológico. Literatura científica especializada sobre biorrepositórios e prevenção personalizada de câncer.
Por Renan Filho · 2026-10-17