O Brasil vive uma febre silenciosa: as apostas esportivas e os cassinos online, antes restritos a um nicho, agora dominam o celular de milhões de jovens. Dados recentes apontam que mais de 20% dos brasileiros entre 18 e 24 anos já fizeram ao menos uma aposta no último mês, um número que cresce em ritmo acelerado. Não é difícil entender o apelo: promessas de dinheiro rápido, publicidade agressiva e uma cultura digital que celebra o lucro fácil. Mas o que parece uma simples diversão tem se tornado um problema de saúde pública, com aumento exponencial de endividamento e transtornos de ansiedade.
O fenômeno não é um acaso do mercado, mas sim o resultado de um ambiente regulatório confuso e de uma população jovem que nunca aprendeu a lidar com risco financeiro. Enquanto o Congresso discute projetos de lei que miram a tributação e a publicidade, o cerne da questão é ignorado: a falta de educação financeira e a ausência de responsabilidade individual. Em vez de proibir, o Estado deveria ensinar os jovens a calcular probabilidades — e a entender que a casa, no longo prazo, sempre vence.
A indústria das bets movimenta bilhões de reais por ano, e as plataformas investem pesado em patrocínios de times de futebol, influenciadores e até em canais de jogos online. Para o jovem de periferia, a aposta de R$ 5 parece uma chance de escapar da realidade, uma loteria com fim em si mesma. Mas os números são implacáveis: a maioria dos apostadores perde, e a minoria que ganha alimenta o ciclo de esperança. É um modelo de negócio lucrativo, mas que se sustenta na exploração da vulnerabilidade alheia.
Por que isso importa? Porque a dependência em jogos de azar é um problema crescente no Brasil, com filas em clínicas de reabilitação e famílias destruídas. Diferente do alcoolismo ou das drogas ilícitas, a aposta é legalizada e glamourizada, o que dificulta o diagnóstico e o tratamento. O jovem que começa com uma simples aposta em um jogo de futebol pode evoluir para um quadro de compulsão, com prejuízos irreversíveis para sua vida financeira e emocional. A liberdade de escolher, defendida pelos liberais, não pode servir de desculpa para a exploração predatória.
Na visão da FORTIS, o caminho não passa por proibições moralistas, mas sim por transparência e educação. As plataformas deveriam ser obrigadas a exibir alertas claros sobre as probabilidades de perder, e os usuários deveriam ter limites de depósito e tempo de jogo. Medidas simples, como a proibição de bônus para quem está em situação de vulnerabilidade, poderiam reduzir os danos sem matar a indústria. Além disso, é fundamental investir em programas de educação financeira nas escolas, para que os jovens entendam que aposta não é investimento, e que a renda deve ser gerida com planejamento, não com sorte.
É preciso, contudo, ouvir o outro lado. Defensores das bets argumentam que o setor gera empregos, arrecada impostos e que a escolha de apostar é uma decisão individual de adultos. Eles têm razão em parte: a liberdade individual é um pilar da sociedade, e o Estado não pode ser o pai de todos. Mas essa liberdade vem acompanhada de responsabilidade — e é aí que o governo falha. Em vez de criar uma agência reguladora eficiente, com mecanismos de fiscalização e punição para abusos, o Brasil assiste a uma expansão descontrolada, sem qualquer proteção ao consumidor.
O que vemos é um vácuo regulatório que favorece os grandes grupos, enquanto o apostador comum fica à deriva. A regulamentação atual, que deveria ser um freio, é uma colcha de retalhos com brechas legais. Enquanto isso, os jovens continuam sendo bombardeados por anúncios que prometem riqueza fácil, sem qualquer contraponto. A responsabilidade não é só do Estado, mas também das plataformas que lucram com o vício — e que deveriam ser obrigadas a investir uma parcela de seus lucros em programas de prevenção.
A saída, portanto, é um equilíbrio entre liberdade e proteção. O Brasil precisa de uma legislação moderna que trate as bets como o que elas são: produtos de alto risco. Isso significa exigir licenças rigorosas, tributar de forma justa e, acima de tudo, educar a população. Não se trata de banir, mas de preparar o cidadão para tomar decisões conscientes. Se o jovem quer apostar, que o faça com informação completa, não com promessas vazias.
Enquanto isso não acontece, os números de dependência só tendem a crescer. A responsabilidade é coletiva: pais, educadores, empresas e governo. Mas, no fim, a decisão é individual — e é isso que torna o debate tão complexo. A liberdade de escolher é um direito, mas ela vem com o dever de conhecer as consequências. O Brasil precisa parar de tratar o jovem como vítima indefesa e começar a tratá-lo como um agente racional, capaz de aprender e de dizer não. Só assim a febre das bets dará lugar a uma cultura de responsabilidade financeira.
A FORTIS acredita que o livre mercado é o melhor motor para o progresso, mas isso não significa ausência de regras. Significa regras inteligentes, que protejam sem sufocar. O desafio é encontrar esse ponto de equilíbrio — e, para isso, é preciso coragem para enfrentar os interesses de um setor que cresce à custa da ilusão. O futuro dos jovens está em jogo, e a resposta não está em proibir, mas em educar.
Por Renan Filho · 2026-09-19