**Lead**
Uma nova pesquisa conduzida por cientistas brasileiros revelou que a aplicação de bactérias específicas pode reduzir em até 60% a severidade dos sintomas causados pelo fungo da brusone do trigo (*Magnaporthe oryzae*), uma das principais ameaças à produção nacional. O estudo, realizado em condições de campo e laboratório por instituições de pesquisa do país, abre caminho para alternativas biológicas ao uso intensivo de fungicidas químicos, que enfrentam resistência crescente e geram preocupações ambientais. Os resultados foram obtidos após testes em variedades comerciais de trigo cultivadas em regiões do Sul e do Cerrado, áreas estratégicas para a expansão da cultura.
**Contexto**
O trigo é o segundo cereal mais produzido no mundo, mas o Brasil ainda depende de importações para suprir cerca de 60% de sua demanda interna. A brusone do trigo, doença fúngica que ataca as espigas e reduz drasticamente a produtividade, é um dos maiores gargalos para a autossuficiência. Tradicionalmente, o controle depende de fungicidas químicos, cuja eficácia tem diminuído devido ao surgimento de linhagens resistentes do fungo. Além disso, o custo elevado e os impactos ambientais e à saúde humana têm levado produtores e cientistas a buscarem soluções sustentáveis.
Os pesquisadores isolaram bactérias do gênero *Bacillus* e de outros grupos presentes na rizosfera do solo brasileiro, conhecidos por sua capacidade de promover crescimento vegetal e inibir patógenos. Em ensaios controlados, as bactérias foram aplicadas via tratamento de sementes e pulverização foliar, resultando em redução significativa das lesões típicas da brusone. A descoberta confirma o potencial do microbioma nativo como ferramenta de manejo integrado de doenças.
O trabalho integra uma linha de pesquisa que vem ganhando força no Brasil: o uso de agentes biológicos para substituir ou complementar os defensivos químicos. Nos últimos anos, o país se tornou referência mundial em controle biológico de pragas, mas ainda há desafios para escalar a tecnologia para fungos como o causador da brusone. O estudo atual representa um avanço importante, pois demonstra eficácia em condições reais de produção, não apenas em laboratório.
**Análise**
A importância dessa descoberta vai além da lavoura. A redução de 60% na severidade dos sintomas significa, na prática, que o produtor pode diminuir o número de aplicações de fungicidas químicos, economizando recursos e reduzindo a exposição de trabalhadores rurais a substâncias tóxicas. Para o Brasil, que busca ampliar a produção de trigo para reduzir a dependência externa e aproveitar janelas de mercado, contar com uma ferramenta biológica eficaz pode tornar a cultura mais competitiva.
Outro ponto relevante é a sustentabilidade. O uso de bactérias benéficas não gera resíduos químicos no grão e no solo, atendendo a exigências cada vez mais rígidas de mercados importadores e consumidores conscientes. Além disso, a tecnologia pode ser adaptada para outras culturas afetadas por fungos similares, como arroz e cevada, ampliando seu impacto.
No entanto, os pesquisadores alertam que ainda são necessários estudos adicionais para definir as melhores formulações, doses e formas de aplicação em larga escala. A compatibilidade com outros insumos agrícolas, como fertilizantes e herbicidas, também precisa ser avaliada. Apesar disso, o horizonte é promissor. O Brasil, com sua megabiodiversidade, tem um imenso potencial para descobrir novos microrganismos benéficos e transformá-los em produtos comerciais acessíveis aos agricultores.
**Fontes**
Pesquisa desenvolvida por instituições brasileiras de pesquisa agrícola, com resultados apresentados em periódico científico revisado por pares. Os dados foram divulgados em eventos técnicos e em comunicado oficial das instituições envolvidas. Para mais informações, recomenda-se consultar as publicações do Ministério da Agricultura e Pecuária e as plataformas de pesquisa da Embrapa.
Por Renan Filho · 2026-10-24