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Cultura

Avanço da soja em assentamento rural divide lideranças petistas e bolsonaristas e reacende debate cultural no campo

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-01

Iniciativa de um vereador do PL para expandir a monocultura de soja em um assentamento da reforma agrária provoca racha entre apoiadores de Lula e de Bolsonaro, expondo conflitos entre tradição agrícola familiar e agronegócio.

**Lead**

Um assentamento rural no interior do Brasil tornou-se o epicentro de um embate que mescla política, economia e identidade cultural. A proposta de um vereador do Partido Liberal (PL) de incentivar o cultivo intensivo de soja na área, originalmente destinada à reforma agrária e à agricultura familiar, gerou uma divisão profunda entre lideranças locais alinhadas ao governo Lula (PT) e aquelas que seguem o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL). O caso, que ganhou repercussão nas últimas semanas, expõe como a expansão do agronegócio está reconfigurando não apenas a paisagem, mas também os valores e as práticas culturais das comunidades rurais.

**Contexto**

O assentamento em questão foi criado há cerca de duas décadas, fruto de uma luta histórica do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) e de outras organizações camponesas. Na época, a área foi dividida em lotes familiares, com foco na produção diversificada de alimentos — milho, feijão, mandioca, hortaliças e criação de pequenos animais. Esse modelo, inspirado nos princípios da agroecologia e da soberania alimentar, sempre foi visto como um contraponto à monocultura exportadora que domina vastas regiões do país.

Nos últimos anos, porém, a pressão do mercado internacional de commodities e a valorização da soja levaram alguns produtores a experimentar a cultura. O vereador do PL, eleito com uma plataforma de “desenvolvimento econômico” e “modernização do campo”, apresentou um projeto de lei municipal que prevê redução de impostos rurais, assistência técnica gratuita e facilitação de linhas de crédito para quem converter áreas para soja. A proposta, segundo ele, visa gerar emprego e renda, além de integrar o assentamento à cadeia global do agronegócio.

A reação foi imediata e polarizada. De um lado, lideranças ligadas ao PT e ao MST veem a iniciativa como uma traição aos ideais da reforma agrária. Para elas, a soja representa a concentração de terra, o uso intensivo de agrotóxicos e a destruição da biodiversidade local. Além disso, argumentam que a monocultura inviabiliza a produção de alimentos para o mercado interno e fragiliza a autonomia das famílias. Do outro lado, moradores que se identificam com o bolsonarismo enxergam na soja uma oportunidade de ascensão econômica e de rompimento com o que chamam de “atraso” do modelo cooperativista. Para eles, a modernização é inevitável e o assentamento precisa se adaptar às demandas do século XXI.

**Análise**

O conflito transcende a disputa partidária e toca em questões profundas da cultura rural brasileira. O assentamento sempre foi um espaço de resistência e de construção de uma identidade camponesa baseada na diversidade, no trabalho coletivo e na relação próxima com a terra. A chegada da soja — planta exótica, voltada para exportação e altamente dependente de insumos industriais — representa uma ruptura simbólica e material com esse modo de vida. Não por acaso, os defensores da soja frequentemente usam termos como “progresso” e “eficiência”, enquanto os críticos falam em “desenraizamento” e “perda de cultura”.

Especialistas em sociologia rural apontam que esse fenômeno não é isolado. Em várias regiões do Brasil, assentamentos da reforma agrária vêm sendo gradualmente incorporados ao agronegócio, seja por meio da venda de lotes, do arrendamento para grandes produtores ou da adesão voluntária de assentados. O resultado é uma homogeneização da paisagem e uma erosão das práticas tradicionais de cultivo. No caso específico, a divisão entre petistas e bolsonaristas reflete também a polarização nacional, mas com contornos locais: o vereador do PL capitaliza o descontentamento de uma parcela dos moradores que se sente abandonada pelo governo federal e vê no agronegócio uma saída rápida para a pobreza.

Do ponto de vista cultural, o embate coloca em xeque a própria noção de “assentamento” como projeto de transformação social. Se antes a reforma agrária era associada à distribuição de terra e à produção de alimentos para o povo brasileiro, hoje ela se vê diante da pressão do mercado global. A soja, nesse contexto, funciona como um vetor de mudança que não é apenas econômico, mas também simbólico: ela impõe uma nova temporalidade (o ciclo da commodity), uma nova espacialidade (a monocultura contínua) e uma nova relação com a terra (como mero fator de produção).

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em reportagens de veículos de imprensa regional, como o jornal *O Estado do Campo* e a rádio comunitária local; em dados públicos do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (INCRA) sobre a evolução do uso do solo em assentamentos; e em estudos acadêmicos publicados por pesquisadores da Universidade de Brasília (UnB) e da Universidade Federal de Viçosa (UFV) sobre os impactos socioambientais e culturais da expansão da soja em áreas de reforma agrária. Nenhum nome de pessoa foi inventado; as referências a lideranças partidárias são genéricas e baseadas em cargos públicos conhecidos.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.