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Autismo: por que o mesmo diagnóstico exige cuidados diferentes no Brasil?

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-29

Especialistas alertam que pessoas no espectro autista necessitam de abordagens de segurança pública e suporte individualizados; falta de capacitação e de políticas específicas agrava riscos.

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Dois meses após o Dia Mundial de Conscientização do Autismo, celebrado em 2 de abril, o Brasil ainda enfrenta um desafio crucial na área de segurança: o mesmo diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA) pode exigir cuidados radicalmente diferentes. Profissionais de saúde, educadores e forças policiais reconhecem que a abordagem padronizada para pessoas autistas não apenas é ineficaz, como pode colocar em risco tanto o indivíduo quanto os agentes envolvidos. A falta de treinamento específico e de protocolos adaptados tem resultado em incidentes que poderiam ser evitados com conhecimento adequado das nuances do espectro.

**Contexto**

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento que afeta a comunicação, interação social e comportamento. A palavra “espectro” indica que os sintomas e as necessidades variam imensamente: enquanto alguns indivíduos têm habilidades verbais avançadas e independência, outros podem ser não verbais, apresentar hipersensibilidade sensorial ou comportamentos repetitivos que, em situações de estresse, podem ser interpretados erroneamente como agressão ou desobediência. No Brasil, estima-se que cerca de 2 milhões de pessoas estejam no espectro, mas dados precisos são escassos devido à subnotificação e à falta de um registro nacional unificado.

A segurança pública brasileira tem sido desafiada por ocorrências envolvendo pessoas autistas. Casos de abordagem policial mal conduzida — como a de um adolescente não verbal que foi algemado por não responder a comandos, ou de uma criança que fugiu de casa e foi encontrada desorientada — evidenciam a lacuna de preparo. Em muitos municípios, não existem protocolos específicos para lidar com TEA. A Polícia Militar de alguns estados, como São Paulo e Minas Gerais, iniciou treinamentos básicos, mas a cobertura ainda é irregular e insuficiente.

Outro aspecto relevante é a segurança dentro das instituições de saúde e educação. Escolas regulares e centros de atendimento especializado nem sempre dispõem de planos de contingência para crises sensoriais ou comportamentais de alunos autistas. A falta de profissionais capacitados, como terapeutas ocupacionais e psicólogos especializados, leva a contenções físicas inadequadas que ferem direitos humanos e agravam traumas. O Ministério da Saúde, por meio da Política Nacional de Proteção dos Direitos da Pessoa com Transtorno do Espectro Autista, prevê ações integradas, mas na prática o acesso a serviços especializados varia enormemente entre regiões.

**Análise**

A diversidade dentro do espectro autista torna imprescindível que o sistema de segurança — entendido em sentido amplo, abrangendo desde a prevenção de acidentes domésticos até a atuação policial — adote uma perspectiva centrada na pessoa. Uma abordagem que funcione para um adulto com autismo leve pode ser catastrófica para uma criança com autismo severo e hipersensibilidade auditiva. Por exemplo, o uso de sirenes e luzes estroboscópicas em uma abordagem policial pode desencadear uma crise de pânico ou fuga, colocando a pessoa em perigo. Da mesma forma, espaços públicos barulhentos e superlotados podem ser fontes de estresse para muitos autistas, exigindo planejamento de rotas de evacuação ou áreas de calma em eventos.

O impacto dessa falta de individualização na segurança é sentido especialmente pelas famílias. Muitos pais relatam que a ausência de redes de apoio e de serviços de emergência prontos para lidar com crises comportamentais os leva a evitar saídas ou a recorrer a medidas restritivas em casa. A criação de um cadastro voluntário de pessoas com autismo, já implementado em algumas cidades, permite que policiais saibam com antecedência sobre o transtorno ao atender uma ocorrência — mas sua adoção ainda é fragmentada. Especialistas defendem que a segurança pública precisa ir além da abordagem reativa e investir em prevenção, como campanhas de conscientização e formação continuada de profissionais.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em relatos de organizações de defesa dos direitos das pessoas com autismo, como a Associação Brasileira de Autismo (ABRA) e a Federação Nacional das Associações de Pais e Amigos dos Autistas (FENAPA). Dados contextuais sobre o espectro autista foram obtidos de publicações da Organização Mundial da Saúde (OMS) e do Ministério da Saúde do Brasil. Exemplos de abordagens policiais foram extraídos de notícias veiculadas por veículos de imprensa nacionais, como G1 e UOL, e de relatórios de comissões de direitos humanos de assembleias legislativas estaduais. A menção a protocolos de segurança em escolas baseia-se em diretrizes do Conselho Nacional de Educação (CNE) e em estudos acadêmicos sobre inclusão escolar.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.