A assessora parlamentar de Flávio Bolsonaro, identificada como Maria de Fátima, foi flagrada em conversas com o miliciano condenado pela morte de Marielle Franco, segundo relatório da Polícia Federal obtido com exclusividade. As mensagens, que datam de 2023, indicam que ela negociou a liberação de emendas parlamentares em troca de apoio político em regiões dominadas por milícias no Rio de Janeiro. A informação, divulgada pelo jornal O Estado de S. Paulo, acende um alerta sobre a influência do crime organizado no Legislativo brasileiro.
A negociação, que ocorreu via aplicativos de mensagens criptografadas, envolveu a destinação de recursos do orçamento secreto para obras em comunidades controladas pelo miliciano. Em troca, a assessora teria garantido a manutenção de cargos comissionados em órgãos federais, uma prática comum na política brasileira, mas que ganha contornos trágicos quando envolve condenados por homicídio. O caso, que já é investigado pelo Supremo Tribunal Federal, reforça a tese de que o Estado, em vez de combater o crime, muitas vezes negocia com ele.
Para entender a gravidade, é preciso lembrar que o miliciano em questão, condenado a 25 anos de prisão, foi um dos executores do assassinato da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes, em 2018. A ligação direta entre um assessor parlamentar e um criminoso desse calibre não é apenas um fato isolado, mas um sintoma de um sistema político que se corrompeu por dentro. A liberação de emendas, instrumento constitucional de transferência de recursos, virou moeda de troca para interesses escusos.
A transparência, princípio caro ao liberalismo, é violentada em cada etapa dessa negociação. O orçamento público, que deveria ser gerido com eficiência e impessoalidade, é manipulado para atender a interesses privados, muitas vezes criminosos. O contribuinte, que financia essa máquina, vê seu dinheiro ser drenado por intermediários que lucram com a miséria alheia. A falta de controle social e a opacidade do orçamento secreto são o combustível para que esquemas como esse prosperem.
A reação das instituições foi imediata. O senador Flávio Bolsonaro, em nota oficial, negou qualquer envolvimento e afirmou que sua assessora agiu de forma autônoma, sem seu conhecimento. Em declaração à imprensa, o parlamentar classificou as acusações como 'caça às bruxas' e tentou desqualificar a investigação, chamando-a de 'politicamente motivada'. No entanto, as mensagens recuperadas pela Polícia Federal mostram o contrário, com a assessora tratando o miliciano como 'chefe' e referindo-se a ele como 'general'.
A Procuradoria-Geral da República, em nota oficial, afirmou que vai aprofundar as investigações e não descarta novas diligências. O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no STF, determinou a quebra de sigilo bancário e fiscal de todos os envolvidos, incluindo a assessora e o senador. A pressão sobre o caso é crescente, e a opinião pública, cansada da impunidade, cobra respostas concretas.
Por que isso importa? Porque a relação entre políticos e milícias não é um problema exclusivo do Rio de Janeiro, mas uma questão nacional que afeta a segurança pública e a integridade do sistema político. Quando o crime organizado consegue influenciar a alocação de recursos públicos, a democracia fica refém. O cidadão de bem, que paga seus impostos e espera contrapartidas em serviços públicos, é o maior prejudicado. A liberação de emendas deveria ser um ato técnico, baseado em critérios objetivos, e não um instrumento de barganha política.
Na perspectiva liberal, a solução passa por mais transparência e menos discricionariedade. A extinção do orçamento secreto, a criação de mecanismos de controle social e a punição rigorosa dos envolvidos são medidas urgentes. O Estado não pode continuar refém de interesses escusos, sob pena de perder a legitimidade. A liberdade individual, base de qualquer sociedade próspera, é corroída quando o Estado se associa ao crime.
O caso também levanta questionamentos sobre a atuação do senador Flávio Bolsonaro, que já responde a outros inquéritos no STF. Sua assessora, que ocupava cargo de confiança no gabinete, pode ter agido com ou sem o aval dele, mas a responsabilidade política é inegável. Em um Estado de Direito, a culpa deve ser provada, mas a confiança na gestão pública é abalada a cada escândalo.
Enquanto isso, o Brasil segue refém de um sistema político que se retroalimenta do caos. A população, cada vez mais cética, observa a classe política dançar conforme a música, sem se importar com as consequências. A liberação de emendas com milicianos é mais um capítulo dessa novela que parece não ter fim, mas que exige uma resposta firme da sociedade. A liberdade e a segurança não podem ser mercadorias negociadas nos porões do poder.
O que se espera, agora, é que as investigações avancem e que os responsáveis sejam punidos. A justiça, embora lenta, é o único caminho para restaurar a confiança nas instituições. O Brasil não pode se dar ao luxo de normalizar o absurdo. A cada caso que vem à tona, a necessidade de reformas estruturais fica mais evidente. A política, na sua essência, deveria ser a arte de servir ao bem comum, e não de se servir dela.
Por Renan Filho · 2026-09-21