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O governo da Argentina anunciou nesta segunda-feira a criação de um Programa de Demissão Voluntária (PDV) direcionado a funcionários públicos de nacionalidade brasileira que atuam em órgãos da administração federal argentina. A medida, publicada em edição extra do Diário Oficial argentino, prevê indenizações e benefícios para brasileiros que optarem por rescindir seus contratos de trabalho até o final do ano. A iniciativa ocorre em um momento de tensão diplomática entre os dois países, após declarações recentes de autoridades argentinas sobre a política econômica brasileira.
**Contexto**
O PDV abrange brasileiros contratados por meio de acordos bilaterais de cooperação técnica, além de profissionais que ingressaram no serviço público argentino via concursos específicos para estrangeiros. Estima-se que cerca de 2.500 brasileiros trabalhem atualmente em ministérios, agências reguladoras e empresas estatais argentinas, principalmente nas áreas de energia, infraestrutura e saúde. O programa oferece indenização equivalente a um salário por ano trabalhado, com teto de doze salários mínimos argentinos, além de manutenção do plano de saúde por seis meses e prioridade em futuros processos seletivos públicos.
A decisão foi tomada pelo Ministério da Modernização argentino, em conjunto com o Ministério das Relações Exteriores, e não passou pelo Congresso Nacional. O governo argentino justifica a medida como parte de um processo de "revisão de acordos bilaterais" e "otimização do quadro de pessoal estrangeiro" diante da crise fiscal que o país enfrenta. A Argentina vive uma inflação anual superior a 200% e busca reduzir gastos públicos em todas as esferas.
A relação entre Brasil e Argentina, tradicionalmente marcada por cooperação e integração regional, passou por momentos de atrito nos últimos meses. Em setembro, o presidente argentino fez críticas à política cambial brasileira, classificando-a como "artificial e prejudicial ao Mercosul". O governo brasileiro, por sua vez, convocou o embaixador argentino para esclarecimentos e suspendeu temporariamente negociações sobre um novo acordo automotivo.
**Análise**
A criação de um PDV exclusivo para brasileiros representa uma ruptura com a tradição de tratamento igualitário entre cidadãos dos países do Mercosul. Especialistas em direito internacional apontam que a medida pode violar o Acordo de Residência do Mercosul, que garante aos nacionais dos Estados-partes os mesmos direitos trabalhistas dos cidadãos locais. O governo argentino, no entanto, argumenta que o programa é voluntário e não configura discriminação, pois brasileiros que optarem por permanecer nos cargos não sofrerão qualquer sanção.
O impacto político da medida é significativo. No Brasil, partidos de oposição já pedem uma resposta firme do Itamaraty, incluindo a possibilidade de reciprocidade com argentinos que trabalham no serviço público brasileiro. Estima-se que cerca de 1.200 argentinos ocupem cargos em universidades federais, hospitais públicos e agências reguladoras no Brasil. Sindicatos de servidores públicos nos dois países manifestaram repúdio à iniciativa, classificando-a como "xenófoba" e "prejudicial à integração regional".
A longo prazo, o PDV pode enfraquecer a cooperação técnica entre Brasil e Argentina em áreas estratégicas como energia nuclear, defesa e ciência espacial. Muitos dos brasileiros que atuam no serviço público argentino são especialistas em setores onde o Brasil possui know-how reconhecido, como biocombustíveis e engenharia de petróleo. A saída desses profissionais pode interromper projetos conjuntos e comprometer acordos de transferência de tecnologia.
**Fontes**
- Diário Oficial da República Argentina, edição extra de 19 de outubro de 2026. - Ministério da Modernização da Argentina, comunicado oficial. - Acordo de Residência do Mercosul (Decreto nº 6.975/2009, Brasil). - Declarações do presidente argentino em setembro de 2026, veiculadas pela agência Telam. - Nota do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, publicada em 20 de outubro de 2026.
Por Renan Filho · 2026-10-19