No Brasil, todo ano eleitoral rima com promessa de aumentar o Bolsa Família. A lógica parece simples: colocar dinheiro na mão do eleitor de baixa renda e colher os votos na urna. A economista Deborah Bizarria, em artigo publicado no portal liberal 'Instituto Liberal', quebrou essa narrativa com dados e lógica de mercado. A conta, segundo ela, não fecha para o país.
O diagnóstico de Bizarria é direto: a aposta eleitoral no Bolsa Família gera um curto-circuito fiscal e institucional. O governo precisa gastar mais, o que eleva a dívida pública, pressiona a inflação e corrói o poder de compra justamente do beneficiário que se quer ajudar. É um ciclo vicioso mascarado de política social.
Contexto: a armadilha do curto prazo. Em 2022, o então presidente Jair Bolsonaro elevou o Auxílio Brasil (o nome anterior do programa) para R$ 600, com um adicional de R$ 150 por filho menor de seis anos. A medida foi amplamente criticada por economistas liberais como eleitoreira e insustentável. O governo atual manteve o valor, mas a conta chegou. O déficit primário explodiu, e a equipe econômica de Fernando Haddad já anunciou revisões de gastos obrigatórios para tentar cumprir o arcabouço fiscal.
Por que importa? Porque a discussão vai além de números. Deborah Bizarria, em seu artigo, argumenta que o Bolsa Família, da forma como é operado, vira uma armadilha de pobreza. O beneficiário não tem estímulo para buscar qualificação profissional ou empreender, pois a perda do benefício é abrupta caso consiga um trabalho formal com carteira assinada. A economista chama isso de 'taxa marginal de pobreza' que desincentiva a ascensão social.
Análise FORTIS: o liberalismo contra a política do assistencialismo. A visão de Bizarria se alinha com a escola austríaca e com o pensamento da Escola de Chicago, que pregam que a verdadeira política social é aquela que gera capital humano e liberdade econômica. Um programa de transferência de renda não pode ser um fim em si mesmo, mas uma ferramenta temporária de choque. Quando se torna permanente e inflado a cada pleito, ele transforma o cidadão em um dependente do Estado, e não em um agente autônomo.
Segundo o relatório do Banco Mundial (2023), o Brasil gasta cerca de 0,7% do PIB com o Bolsa Família. O problema não é o valor, mas a falta de contrapartidas efetivas. Se o dinheiro fosse redirecionado para a criação de zonas de livre comércio no Nordeste, redução drástica de impostos e desburocratização para pequenos negócios, o resultado seria muito mais robusto em termos de empregos e renda. Mas isso não rende voto no curto prazo.
Contraponto: o argumento da segurança alimentar. Os defensores do programa, como a própria ministra do Desenvolvimento Social, Wellington Dias (PT), em declaração à imprensa em junho de 2024, afirmam que o Bolsa Família reduziu a extrema pobreza em 25% desde 2023. Para eles, o programa é a linha de defesa contra a fome. Ninguém discute que o Brasil precisa de uma rede de proteção. O que Deborah Bizarria questiona, e com razão, é o desenho perverso que só funciona como moeda eleitoral.
Um estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV Social), divulgado em março de 2024, mostrou que, apesar do aumento do Bolsa Família, a taxa de desemprego entre jovens (18 a 24 anos) continua em dois dígitos (18,5%). Ou seja, o dinheiro chega, mas a falta de empregos formais impede a emancipação dessas famílias. É a prova de que o assistencialismo sem reformas estruturais é um placebo eleitoral.
O caminho liberal, como sugere Bizarria, é doloroso mas necessário: transformar o Bolsa Família em um programa de transição com forte condicionamento de educação e capacitação técnica, combinado com uma reforma tributária que desonere a folha de pagamento e incentive a contratação de jovens de baixa renda. Quem aposta no Bolsa Família para vencer a próxima eleição pode estar alimentando o monstro da dependência que, no longo prazo, devora o crescimento.
Segundo dados do Tesouro Nacional, o gasto obrigatório com programas de transferência de renda cresceu 40% acima da inflação entre 2016 e 2024. Se essa tendência continuar, a conta será paga com mais impostos ou com a quebra do teto de gastos. E o eleitor, em vez de ter autonomia, terá apenas um vale mensal e um Estado cada vez mais pesado sobre os ombros.
Por Renan Filho · 2026-09-22