A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) publicou, nesta sexta-feira, 25 de setembro, uma resolução que proíbe a propaganda de qualquer tipo do medicamento Semavy – a popular “caneta emagrecedora” à base de semaglutida – em todo o território nacional. A medida foi tomada após fiscalização que identificou anúncios irregulares veiculados em redes sociais e plataformas digitais, os quais, segundo a autarquia, desrespeitavam as normas de publicidade de medicamentos controlados.
De acordo com a nota oficial divulgada pela Anvisa, as propagandas em questão “induziam o uso indiscriminado do produto, sem a devida orientação médica e sem os alertas obrigatórios sobre contraindicações e efeitos adversos”. A agência também destacou que o Semavy é um medicamento de prescrição obrigatória, destinado ao tratamento de diabetes tipo 2 e obesidade, e que sua venda sem receita ou com publicidade enganosa representa risco à saúde pública.
O Semavy, fabricado pelo laboratório dinamarquês Novo Nordisk, é um análogo do hormônio GLP-1, aprovado pela Anvisa em 2023 para uso no Brasil. Desde então, o produto ganhou enorme popularidade como “caneta emagrecedora”, impulsionado por influenciadores e celebridades que relatavam perda de peso rápida. A demanda disparou, gerando filas de espera e escassez em farmácias, além de um mercado paralelo de importação e revenda.
A proibição atinge não apenas os anúncios que motivaram a fiscalização, mas toda e qualquer propaganda do Semavy, incluindo materiais de laboratórios, clínicas e profissionais de saúde. A Anvisa argumenta que a suspensão é necessária para “evitar a continuidade de práticas irregulares” enquanto o processo administrativo corre em sigilo. A empresa Novo Nordisk foi procurada pela reportagem, mas não se manifestou até o fechamento desta edição.
Por que isso importa? O Brasil vive um paradoxo: de um lado, o país tem uma das maiores cargas tributárias do mundo e um sistema de saúde pública que, segundo dados do Ministério da Saúde, gasta mal os recursos e entrega resultados aquém do esperado. De outro, o Estado intervém pesadamente no mercado de medicamentos, seja via regulação de preços (como na CMED), seja via controle de publicidade. A decisão da Anvisa, embora amparada na lei, levanta questões sobre a eficácia e a proporcionalidade da medida.
Análise FORTIS: Em uma economia de livre mercado, a publicidade é um veículo legítimo de informação e concorrência. O consumidor adulto e informado deve ter acesso a dados sobre produtos que podem melhorar sua qualidade de vida, desde que respeitadas as regras de veracidade. No caso do Semavy, a Anvisa poderia ter atuado de forma cirúrgica: multar os anunciantes infratores, exigir correções pontuais e intensificar a fiscalização digital. Em vez disso, optou por uma proibição total, que atinge indistintamente empresas sérias e consumidores que buscam tratamento.
A medida também revela uma característica crônica do Estado brasileiro: a tendência a regular por decreto, sem considerar os custos de oportunidade. Enquanto a Anvisa gasta energia e recursos públicos para caçar anúncios de uma caneta emagrecedora, o país enfrenta filas de meses para exames de rotina no SUS e uma epidemia de obesidade que já atinge mais de 60% da população adulta, segundo a Pesquisa Nacional de Saúde (PNS) de 2023. O foco deveria estar em garantir o acesso seguro a medicamentos eficazes, e não em sufocar a informação que pode levar as pessoas a buscar tratamento.
Contraponto: É preciso reconhecer que a publicidade de medicamentos controlados exige cuidado. A própria legislação brasileira (RDC 96/2008) proíbe anúncios que criem expectativas irreais ou omitam riscos. Relatos de pacientes que usaram semaglutida sem acompanhamento médico e sofreram efeitos colaterais graves – como pancreatite e gastroparesia – são reais e preocupam especialistas. A Anvisa, nesse sentido, cumpre seu dever de proteger a saúde pública. No entanto, a forma como fez – com uma proibição ampla e sem prazo definido – parece mais um ato de força do que uma solução inteligente. O órgão poderia, por exemplo, exigir que as propagandas incluam alertas claros e links para bulas oficiais, em vez de simplesmente calar todas as vozes.
O debate, portanto, não é sobre se a regulação deve existir, mas sobre como ela deve ser feita. Um Estado que tributa pesadamente e entrega pouco – como é o caso do Brasil, onde a carga tributária chega a 33% do PIB e a qualidade dos serviços públicos é medíocre – não pode se dar ao luxo de criar barreiras desnecessárias ao acesso a tratamentos inovadores. A proibição da propaganda do Semavy, se mantida, pode reduzir a procura pelo medicamento, mas também pode empurrar consumidores para o mercado ilegal de falsificações ou para produtos importados sem registro, com riscos ainda maiores.
Por Renan Filho · 2026-09-25