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A Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) anunciou nesta quinta-feira, 29 de outubro de 2026, a adoção obrigatória do reconhecimento facial para ativar ou manter linhas de celular em todo o Brasil. A decisão, aprovada pelo conselho diretor da agência, determina que as operadoras implementem a verificação biométrica por meio da base de dados da biometria da Justiça Eleitoral antes de liberar qualquer chip novo ou manter ativas linhas que ainda não tenham passado pelo recadastramento.
**Contexto**
A medida faz parte de um pacote de combate às fraudes telefônicas, que inclui a clonagem de chips e a utilização de linhas registradas em nomes de terceiros sem consentimento — os chamados "laranjas". Segundo a Anatel, o uso de dados biométricos já em poder da Justiça Eleitoral permite uma checagem mais rápida e confiável em comparação com os sistemas atuais, baseados apenas em documentos e fotos enviados manualmente.
A exigência valerá para a ativação de linhas pré-pagas e pós-pagas e também para o cadastro de novas contas em operadoras móveis. No caso das linhas já ativas, a Anatel definiu um cronograma de recadastramento que será divulgado nos próximos meses. As operadoras terão um prazo de adaptação para integrar suas plataformas ao sistema biométrico do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), responsável por armazenar cerca de 120 milhões de impressões digitais de eleitores brasileiros.
A agência reguladora informou que a conexão com a base do TSE será feita por meio de um ambiente seguro e auditável, com registro de todas as consultas. A medida segue o modelo adotado em outros setores, como o bancário, que já utiliza reconhecimento facial em aplicativos e caixas eletrônicos. Também se alinha a uma tendência internacional de regulação mais rígida para identidade digital.
A decisão da Anatel ocorre depois de um aumento expressivo de reclamações de consumidores sobre linhas ativadas indevidamente ou usadas para aplicar golpes. Dados preliminares apresentados pela agência indicam que o número de ocorrências envolvendo troca de chips sem autorização cresceu de forma consistente nos últimos anos. A agência, no entanto, não divulgou os números absolutos, que deverão constar do relatório final do processo regulatório.
**Análise**
A adoção obrigatória da biometria facial pela Anatel representa uma mudança estrutural no relacionamento entre operadoras e assinantes. Hoje, a compra de um chip pré-pago é feita em poucos minutos, com apresentação de documento e preenchimento de um cadastro. Com a nova regra, será necessário um nível maior de segurança — e também de exposição de dados pessoais.
O principal benefício esperado é a redução de fraudes. Ao vincular a linha de celular à identidade biométrica do titular, fica mais difícil que terceiros utilizem documentos roubados ou dados obtidos em vazamentos para habilitar números. Isso tende a impactar diretamente o crime de estelionato, já que muitos golpes no país dependem de linhas ativadas em nomes de vítimas ou de pessoas inexistentes.
Por outro lado, a medida impõe desafios práticos. O Brasil tem uma parcela considerável da população sem acesso facilitado a serviços públicos digitais, incluindo moradores de zonas rurais e pessoas em situação de vulnerabilidade social. Para esses grupos, a exigência de comparecimento presencial ou de uso de sistemas com biometria pode representar uma barreira adicional ao acesso à telefonia móvel. A Anatel terá de garantir que o processo seja inclusivo, com alternativas para quem não possui biometria cadastrada na Justiça Eleitoral.
Outro ponto de atenção é a proteção de dados. O uso de uma base vinculada a um órgão eleitoral para fins comerciais levanta questionamentos sobre privacidade, mesmo com a previsão de auditoria e controle de acesso. A lei brasileira de proteção de dados exige finalidade específica e minimização no tratamento de informações pessoais, o que deverá ser objeto de análise detalhada por parte da Autoridade Nacional de Proteção de Dados (ANPD).
A decisão da Anatel também deverá acelerar o debate sobre uma identidade digital única no Brasil. A unificação de bases biométricas já é discutida em âmbito federal como forma de simplificar o acesso a serviços públicos e privados. A obrigatoriedade do reconhecimento facial no setor de telecomunicações cria um precedente importante para outras áreas, como varejo e plataformas digitais.
**Fontes**
As informações foram divulgadas oficialmente pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel), por meio de nota pública e coletiva de imprensa com o conselho diretor da agência. Também foram considerados comunicados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a base biométrica disponível para consulta. A reportagem acompanhou a repercussão da decisão entre associações de defesa do consumidor e especialistas em segurança digital, que se manifestaram em seus canais públicos de comunicação.
Por Renan Filho · 2026-10-29