**Lead**
A cada ciclo eleitoral no Brasil, candidatos à Presidência apresentam promessas fiscais que prometem conciliar aumento de gastos sociais, redução de impostos e equilíbrio das contas públicas. No entanto, uma análise de economistas e instituições independentes indica que essas promessas são, em grande parte, pouco confiáveis. O histórico recente mostra que, independentemente do partido no poder, compromissos assumidos durante a campanha são frequentemente abandonados ou postergados após a posse, minando a credibilidade do planejamento fiscal e gerando incertezas para investidores e para a população.
**Contexto**
O Brasil enfrenta um desafio fiscal crônico. Desde a promulgação da Constituição de 1988, o país acumula déficits primários recorrentes, com exceção de breves períodos. A adoção do teto de gastos em 2016, que limitava o crescimento das despesas à inflação, foi uma tentativa de impor disciplina, mas sofreu sucessivas flexibilizações e foi substituído pelo novo arcabouço fiscal em 2023. Mesmo assim, as metas fiscais têm sido descumpridas ou revisadas para baixo com frequência.
Nesse contexto, candidatos de diferentes espectros políticos costumam fazer promessas que envolvem aumento de investimentos em saúde, educação e infraestrutura, ao mesmo tempo em que propõem redução da carga tributária. A conta, no entanto, raramente fecha. Estudos de think tanks como o Insper e a FGV apontam que a maioria das propostas não apresenta fontes de financiamento críveis ou considera o impacto de juros da dívida pública, que consome parcela significativa do Orçamento.
Além disso, o calendário eleitoral incentiva o chamado “populismo fiscal”: promessas feitas para agradar eleitores no curto prazo, sem compromisso com a sustentabilidade de longo prazo. Exemplos históricos não faltam. Em 2014, a então presidente Dilma Rousseff prometeu manter a política de desonerações e investimentos, mas o país mergulhou em uma grave crise fiscal que culminou em impeachment. Em 2018, Jair Bolsonaro prometeu equilibrar as contas e realizar reformas, mas a pandemia e a expansão de gastos levaram a um aumento expressivo da dívida. Em 2022, Luiz Inácio Lula da Silva prometeu revogar o teto de gastos e ampliar programas sociais, o que de fato ocorreu, mas sem uma âncora fiscal clara, gerando desconfiança no mercado.
**Análise**
A falta de confiabilidade das promessas fiscais tem consequências concretas. O mercado financeiro reage com prêmios de risco mais altos, elevando os juros futuros e encarecendo o custo do crédito para empresas e famílias. O Banco Central, por sua vez, precisa manter a taxa Selic em patamares elevados para conter a inflação, o que inibe o crescimento econômico. A volatilidade cambial também é afetada, pois investidores estrangeiros exigem maior retorno para aplicar em um país com histórico de descumprimento de regras fiscais.
Do ponto de vista social, a falta de credibilidade fiscal prejudica justamente os mais pobres. Quando o governo gasta além da conta, a inflação corrói o poder de compra, e os cortes orçamentários emergenciais atingem programas sociais e investimentos em infraestrutura. A experiência internacional mostra que países que adotam regras fiscais críveis e as cumprem — como Chile e Peru — conseguem crescer de forma mais sustentável e proteger os mais vulneráveis.
A análise sugere que, para reverter esse ciclo, seria necessário um pacto político amplo que transcenda o calendário eleitoral. Isso incluiria a adoção de regras fiscais de difícil alteração, a criação de instituições independentes de monitoramento e a exigência de que candidatos apresentem planos de médio prazo com projeções realistas de receitas e despesas. Enquanto isso não ocorrer, o eleitor deve encarar com ceticismo promessas que parecem boas demais para ser verdade.
**Fontes**
Esta análise baseia-se em relatórios de instituições como o Tesouro Nacional, o Banco Central do Brasil, a Instituição Fiscal Independente (IFI) do Senado Federal, além de estudos acadêmicos e publicações de think tanks como o Insper, a Fundação Getulio Vargas (FGV) e o Centro de Debates de Políticas Públicas (CDPP). As conclusões refletem a avaliação de economistas e analistas de mercado que acompanham a trajetória fiscal brasileira, sem que tenham sido citados nominalmente para evitar a atribuição de declarações específicas não verificadas.
Por Renan Filho · 2026-09-30