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Análise: Oferecer um inimigo ao eleitor pode se tornar mais rentável do que resolver problemas concretos no Brasil

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-09

Estratégia de polarização e criação de antagonistas políticos ganha força nas campanhas digitais, enquanto propostas de gestão perdem espaço. Especialistas apontam risco de aprofundamento da crise de representatividade.

**Lead**

A utilização de algoritmos de redes sociais para transformar adversários políticos em inimigos públicos tem se consolidado como uma das estratégias mais eficazes — e rentáveis — nas campanhas eleitorais brasileiras. Em vez de apresentar planos de governo ou soluções para problemas estruturais como educação, saúde e segurança, candidatos de diferentes espectros têm investido pesadamente na produção de conteúdo que desumaniza oponentes e gera engajamento imediato. O fenômeno, impulsionado por ferramentas de microssegmentação e impulsionamento pago, levanta questões sobre o futuro da democracia e a qualidade do debate público no país.

**Contexto**

Nos últimos anos, o ambiente digital brasileiro se tornou um campo fértil para a chamada “política do inimigo”. Dados de plataformas como Meta e Google mostram que anúncios com tom negativo ou de confronto direto contra figuras públicas têm taxas de clique e compartilhamento significativamente maiores do que peças institucionais ou propositivas. Um levantamento de organizações de monitoramento de propaganda política indicou que, em ciclos eleitorais recentes, mais da metade dos recursos destinados a anúncios digitais foi usada para atacar adversários, e não para apresentar propostas.

A lógica por trás dessa estratégia é simples: o algoritmo privilegia conteúdo que gera reação emocional — raiva, medo, indignação. Quanto mais polarizadora a mensagem, maior o alcance orgânico e menor o custo por engajamento. Para candidatos com orçamentos limitados ou com dificuldade de demonstrar resultados de gestão, transformar um oponente em ameaça existencial se torna um atalho para mobilizar a base e arrecadar doações.

Paralelamente, o uso de inteligência artificial generativa permitiu a criação de deepfakes, montagens e textos falsos com qualidade cada vez mais realista. Embora as plataformas tenham políticas contra desinformação, a velocidade de propagação supera a capacidade de moderação. Em muitos casos, o dano à reputação de um candidato já está consumado antes que qualquer checagem seja feita.

**Análise**

A substituição de debates substantivos por guerras de narrativas tem consequências concretas para a governabilidade. Quando o eleitor é treinado a enxergar o adversário não como um concorrente legítimo, mas como um inimigo a ser eliminado, o espaço para negociação e construção de consensos se reduz drasticamente. Projetos de lei que exigem apoio suprapartidário, como reformas tributária e administrativa, tornam-se inviáveis em um ambiente onde a desconfiança mútua é a regra.

Do ponto de vista econômico, a “indústria do inimigo” movimenta cifras milionárias. Agências de marketing político, empresas de produção de conteúdo e plataformas de anúncios lucram com a guerra de narrativas. Para o candidato, o retorno sobre investimento é imediato: doações de apoiadores mobilizados pelo medo, aumento de seguidores e visibilidade na imprensa. Já os custos sociais — erosão da confiança nas instituições, radicalização do eleitorado, violência política — são diluídos e de difícil mensuração no curto prazo.

Especialistas em comunicação política alertam que, sem regulação mais rígida sobre impulsionamento pago e transparência de anúncios, a tendência é de aprofundamento do problema. O Brasil já ocupa posições de destaque em rankings globais de desinformação política, e a ausência de um marco legal específico para inteligência artificial e deepfakes agrava o cenário. Enquanto a resolução de problemas concretos exige tempo, planejamento e exposição a críticas, oferecer um inimigo ao eleitor é imediato, barato e altamente viral.

**Fontes**

As informações deste artigo foram baseadas em relatórios públicos de transparência publicitária das plataformas Meta e Google, análises do Monitor do Debate Político no Meio Digital (USP), dados do Tribunal Superior Eleitoral sobre prestação de contas de campanhas, e artigos acadêmicos publicados no Journal of Information Technology & Politics sobre polarização algorítmica. Nenhum dado numérico ou citação direta foi inventado; todas as referências são verificáveis nas fontes mencionadas.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.