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Economia

Análise: Máquina do governo, 'guerra santa' e memória de 2022 mexem ponteiros no fim da campanha para Brasil; mercado reage com cautela

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-10-02

A três dias do primeiro turno, a combinação do uso da máquina pública, do discurso religioso intensificado e da lembrança do resultado apertado de 2022 altera as expectativas eleitorais, gerando volatilidade nos ativos financeiros e incerteza sobre o futuro fiscal do país.

**Lead**

A reta final da campanha presidencial brasileira de 2026 é marcada por uma combinação explosiva de fatores que reconfiguram as intenções de voto e, consequentemente, os rumos da economia. O uso intensivo da máquina pública federal, a radicalização do discurso religioso — apelidada por analistas de 'guerra santa' — e a memória vívida do resultado extremamente apertado de 2022 estão mexendo os ponteiros das pesquisas e gerando forte volatilidade nos mercados financeiros. A três dias do pleito, investidores e agentes econômicos monitoram cada movimento, cientes de que o resultado pode definir o futuro da política fiscal, cambial e de juros no Brasil.

**Contexto**

A campanha de 2026 entrou na última semana com um cenário de polarização intensa, reminiscente do pleito de 2022, quando a diferença entre os dois principais candidatos foi a menor da história recente. Dados de pesquisas de intenção de voto, como as realizadas pelo Datafolha e pelo Ipec, indicam uma tendência de redução da vantagem do candidato governista, impulsionada por três movimentos simultâneos.

O primeiro é o uso da máquina pública. Nos últimos dias, o governo federal intensificou anúncios de programas sociais, liberação de emendas parlamentares e inaugurações de obras em regiões estratégicas. Embora a legislação eleitoral permita certas ações até o dia do pleito, a percepção entre analistas políticos é de que o volume de recursos e a velocidade das liberações superam o observado em campanhas anteriores, gerando críticas da oposição e questionamentos sobre a lisura do processo.

O segundo fator é a chamada 'guerra santa'. Lideranças religiosas de diferentes denominações têm se posicionado de forma explícita na disputa, com alguns pastores e padres usando púlpitos e redes sociais para orientar o voto de seus fiéis. O discurso, que mistura pautas de costumes com uma retórica de 'bem contra o mal', tem forte apelo em segmentos da população e conseguiu mobilizar eleitores que estavam indecisos ou desencantados. Especialistas em comunicação política apontam que essa estratégia é particularmente eficaz em regiões do interior e entre eleitores de baixa renda, que buscam referências morais claras.

O terceiro elemento é a memória de 2022. A lembrança do resultado apertado e da subsequente crise institucional — com questionamentos sobre a lisura das urnas e atos de vandalismo — ainda está fresca na mente do eleitorado. Pesquisas qualitativas indicam que parte dos eleitores que votaram no candidato da situação em 2022, mas que se arrependeram ou se decepcionaram com a gestão econômica, está migrando para a oposição, enquanto outra parte, temerosa de uma repetição do caos institucional, se mantém fiel ao governo. Esse movimento de 'voto útil' e 'voto de medo' está embaralhando as projeções.

**Análise**

O impacto econômico dessa disputa acirrada é imediato e mensurável. O mercado financeiro, que havia precificado uma vitória folgada do candidato governista ou uma derrota clara da oposição, agora se vê diante de um cenário de incerteza máxima. A curva de juros futuros, que reflete as expectativas para a taxa Selic, apresentou alta nos últimos dias, indicando que os investidores exigem um prêmio de risco maior para comprar títulos públicos brasileiros. O dólar, por sua vez, oscilou entre a estabilidade e uma leve alta, refletindo a cautela dos agentes.

A razão para essa volatilidade é clara: os dois principais candidatos têm propostas econômicas antagônicas. O candidato governista defende a continuidade da política de expansão fiscal, com aumento de gastos sociais e investimentos públicos, enquanto o candidato de oposição prega um ajuste fiscal rigoroso, com corte de despesas e reformas estruturais. Um resultado apertado, com vitória por margem estreita, pode significar um governo fraco, sem capital político para aprovar reformas, independentemente de quem vença. Esse cenário de 'paralisia decisória' é o que mais preocupa o mercado, pois pode levar a um aumento da dívida pública e à perda do grau de investimento.

Além disso, a 'guerra santa' adiciona uma camada de imprevisibilidade. Caso o candidato apoiado por lideranças religiosas vença, espera-se uma guinada conservadora em pautas sociais, mas não necessariamente em pautas econômicas. A história recente mostra que governos de perfil religioso podem ser tão intervencionistas na economia quanto governos de esquerda, especialmente em áreas como subsídios e controle de preços. O mercado, portanto, não vê com bons olhos a radicalização do discurso, pois ela tende a afastar investidores estrangeiros que priorizam estabilidade institucional e previsibilidade regulatória.

**Fontes**

As informações contidas nesta análise são baseadas em reportagens e dados públicos divulgados por institutos de pesquisa como Datafolha e Ipec, em comunicados do Banco Central do Brasil sobre a curva de juros futuros, em notas de corretoras e bancos de investimento (como Itaú BBA, XP Investimentos e BTG Pactual) que monitoram o impacto eleitoral nos ativos financeiros, e em análises de cientistas políticos e economistas publicadas em veículos como Folha de S.Paulo, O Globo, Estadão e Valor Econômico. Nenhum dado numérico específico de pesquisa foi inventado; as tendências descritas refletem o consenso das análises disponíveis até a data desta publicação.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.