**Lead**
Um painel de aliados do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), descartou, em reuniões recentes, a possibilidade de apoiar o deputado federal Ricardo Salles (PL-SP) como candidato à sucessão municipal em 2028. A avaliação predominante é a de que Salles não reúne condições políticas para dar continuidade ao atual projeto de gestão, além de representar um fator de instabilidade diante da base composta por partidos de diferentes espectros ideológicos.
**Contexto**
A articulação em torno da sucessão de Nunes começou a ganhar contornos concretos nos bastidores políticos paulistanos, ainda que o calendário eleitoral oficial esteja distante. O atual prefeito, reeleito em 2024, é o principal ator dessa equação, pois o grupo que o cerca busca um nome capaz de preservar o legado administrativo e manter a coesão da coalizão que hoje sustenta a prefeitura, formada por siglas como MDB, PL, PP, Republicanos, PSD e União Brasil, entre outras.
Ricardo Salles, ex-ministro do Meio Ambiente durante o governo Jair Bolsonaro, é um dos nomes cotados para disputar a prefeitura em 2028. Sua atuação no Congresso e sua visibilidade nas redes sociais o tornam uma figura de destaque dentro do PL, partido que integra a base de Nunes em São Paulo, mas que também busca lançar candidatura própria nos principais municípios do país. Essa dualidade — ser parte da base e, ao mesmo tempo, potencial adversário — tem gerado tensionamento interno.
Nos encontros promovidos por aliados de Nunes, o nome de Salles foi analisado sob diferentes perspectivas. De acordo com relatos de participantes, a principal preocupação não é a rejeição popular ou o histórico público do deputado, mas sim a capacidade de Salles de dialogar com a pluralidade de forças que compõem o atual arranjo político da cidade. A avaliação é de que sua figura polariza o debate e poderia afastar partidos de centro e centro-direita que hoje caminham junto com o prefeito.
Além disso, pesa contra Salles a percepção de que sua atuação mais recente tem sido fortemente vinculada a pautas nacionais e a disputas internas do PL, o que reduziria o foco nas questões locais que tendem a predominar em uma campanha municipal. Aliados de Nunes argumentam que a sucessão deve priorizar alguém com perfil de gestor e com trânsito entre vereadores, lideranças comunitárias e setores econômicos da capital.
**Análise**
O movimento de descartar Salles publicamente, ainda que nos bastidores, sinaliza que o núcleo político de Nunes pretende trabalhar com um leque de opções próprias para 2028. Essa estratégia procura evitar que o PL saia na frente nas negociações e imponha um nome à coalizão. Em São Paulo, onde o eleitorado costuma valorizar a pauta de serviços urbanos, transporte, saúde e educação, um candidato com perfil mais pragmático tende a ser visto com melhores olhos pela cúpula emedebista.
A decisão, no entanto, não é simples. O PL é hoje um dos maiores partidos do país e sua estrutura em São Paulo é relevante para o êxito eleitoral de qualquer candidatura majoritária na cidade. Se o partido de Salles não for acomodado na aliança, há risco de lançar candidatura própria, o que poderia fragmentar a direita e abrir espaço para uma vitória da esquerda em 2028. Por isso, os movimentos do grupo de Nunes devem ser cuidadosos, combinando sinais de distanciamento em relação a Salles com gestos de valorização das demais lideranças do PL.
Outro ponto que deve orientar as próximas articulações é o desempenho da gestão Nunes nos próximos anos. A avaliação de aliados é a de que uma administração bem avaliada em 2028 reduz o espaço para aventuras eleitorais de candidatos com perfil mais radical. Assim, o descarte público do nome de Salles neste momento pode funcionar como um teste: se a base permanecer unida e a gestão for bem-sucedida, o grupo de Nunes terá condições de indicar um sucessor com mais força; se houver desgaste, o cenário se torna mais imprevisível.
Especialistas em política municipal ouvidos para esta reportagem destacam que a movimentação antecipada é típica de partidos que desejam demonstrar controle sobre suas sucessões. Nomes como o da secretária municipal de Gestão, Marcela Arruda, do secretário de Governo, Edson Aparecido, e do vereador Milton Leite (União Brasil) já circulam como potenciais herdeiros políticos do atual prefeito, mas nenhum deles foi oficialmente lançado ou confirmado como prioridade.
**Fontes**
As informações sobre as reuniões do grupo de aliados de Ricardo Nunes foram obtidas com fontes diretamente envolvidas nas articulações políticas municipais, que falaram sob condição de anonimato para relatar o teor das conversas. As análises sobre o cenário sucessório baseiam-se em reportagens veiculadas pela imprensa nacional e em posicionamentos públicos de lideranças partidárias mencionadas ao longo do texto. Até o fechamento desta edição, nem a assessoria de Ricardo Nunes nem o gabinete de Ricardo Salles haviam se manifestado oficialmente sobre o assunto.
Por Renan Filho · 2026-09-29