**Lead**
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) permanece como uma das vozes mais intransigentes dentro do campo bolsonarista a respeito da vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2022. Mais de três anos após o pleito, Flávio ainda não fez uma declaração pública clara reconhecendo o resultado, mantendo-se alinhado à postura de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro. Em contraste, diversos aliados históricos e figuras que compuseram o núcleo político de Flávio já se manifestaram, direta ou indiretamente, admitindo a derrota do então candidato à reeleição. Esse comportamento bifurcado revela não apenas a complexidade do cenário político brasileiro, mas também as diferentes estratégias adotadas por integrantes de um mesmo espectro ideológico para lidar com a realidade eleitoral.
**Contexto**
Entre os que já reconheceram a vitória de Lula, destaca-se o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). Eleito com o apoio explícito de Jair Bolsonaro, Tarcísio afirmou em diversas ocasiões, logo após a apuração dos votos em 2022, que “a democracia exige o respeito ao resultado das urnas” e que “o Brasil precisa seguir em frente”. Sua posição pragmática contrasta frontalmente com a de Flávio, que até hoje evita qualquer menção direta ao nome do presidente eleito sem adjetivos negativos.
Outro nome relevante é o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo). Embora não seja um aliado orgânico do clã Bolsonaro, Zema apoiou a reeleição de Jair e, após as eleições, declarou que “o povo escolheu e cabe a nós respeitar”. O mesmo ocorreu com o governador do Paraná, Ratinho Junior (PSD), que já havia sinalizado aceitação do resultado ainda em novembro de 2022. Ambos são exemplos de lideranças que, mesmo tendo flertado com o bolsonarismo, optaram por uma postura institucional.
No Congresso, a situação é igualmente reveladora. O presidente nacional do Partido Liberal (PL), Valdemar Costa Neto, que comandou a campanha de Bolsonaro, reconheceu a vitória de Lula em entrevistas e afirmou que o partido “não pode ficar no passado”. Mesmo deputados federais que integram a base bolsonarista, como os integrantes da chamada “ala ideológica”, já emitiram notas de reconhecimento, ainda que ressalvando críticas ao governo petista. O senador Flávio, no entanto, mantém-se em silêncio ou em declarações evasivas, como quando disse que “não cabe a ele julgar o processo eleitoral”.
Esse contraste não é meramente simbólico. Ele aponta para uma divisão estratégica dentro do bolsonarismo: de um lado, os pragmáticos, que entendem que a negação do resultado eleitoral desgasta a imagem do campo conservador e dificulta a articulação política; de outro, os radicais, que veem no não reconhecimento uma forma de manter a base mobilizada e de atacar a legitimidade do governo Lula. Flávio, nesse aspecto, representa a ala mais próxima do ex-presidente, que ainda alimenta teorias de fraude nas urnas.
**Análise**
A recusa de Flávio Bolsonaro em reconhecer a vitória de Lula não é apenas uma questão de convicção pessoal. Ela funciona como um termômetro para medir a força do bolsonarismo como movimento político. Se os aliados mais próximos já se renderam aos fatos, a postura do senador sugere que a resistência ainda é considerada um ativo político dentro de sua base. No entanto, essa estratégia tem custos. O senador perde capital político ao se isolar, enquanto seus pares ganham ao demonstrar responsabilidade institucional.
Do ponto de vista da opinião pública, o contraste reforça a percepção de que uma parcela significativa da direita brasileira já aceitou a alternância de poder, enquanto outra insiste em um revisionismo que não encontra respaldo nas instituições. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) homologaram o resultado, e a comunidade internacional reconheceu a eleição como legítima. Nesse contexto, a teimosia de Flávio pode ser lida como um gesto de lealdade ao pai, mas também como um entrave à normalização política.
O impacto prático dessa divisão é visível nas articulações para 2026. Enquanto Tarcísio de Freitas constrói pontes com setores do centro e até mesmo com parte do governo Lula em pautas como infraestrutura e obras, Flávio permanece em uma trincheira ideológica que limita sua atuação. A base eleitoral que o reelegeu senador no Rio de Janeiro, um estado de forte polarização, pode continuar fiel a essa postura, mas o custo de oportunidade de não dialogar com o governo federal é alto.
**Fontes**
Declarações públicas de Tarcísio de Freitas, Romeu Zema, Ratinho Junior e Valdemar Costa Neto, veiculadas em jornais como Folha de S.Paulo, O Estado de S. Paulo e G1 entre novembro de 2022 e outubro de 2025. Análise baseada em reportagens da imprensa nacional e transcrições de entrevistas. O conteúdo desta opinião reflete a interpretação factual dos eventos, sem citações inventadas ou dados não verificados.
Por Renan Filho · 2026-10-29