A discussão sobre a qualidade do gasto público no Brasil raramente foge do lugar-comum: falta dinheiro, sobram desculpas. No entanto, um coro crescente de economistas, gestores e analistas políticos tem insistido em uma tese incômoda para a velha política: o problema não é apenas orçamentário, mas fundamentalmente gerencial. Em publicação nas redes sociais, o economista Samuel Pessoa, do FGV Ibre, resumiu a questão ao afirmar que “o Brasil não tem um problema de falta de dinheiro, mas de sobra de ineficiência”. A declaração, repercutida em colunas de grande circulação, reforça o argumento de que a gestão pública brasileira padece de males estruturais que a simples injeção de recursos não resolve.
O diagnóstico não é novo, mas ganha força diante dos resultados pífios de programas sociais robustos e de investimentos bilionários em infraestrutura. Dados do Tesouro Nacional, compilados pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), indicam que, entre 2010 e 2024, os gastos primários do governo federal saltaram de 27% para 37% do PIB, enquanto a percepção de qualidade dos serviços, medida por pesquisas de opinião, permaneceu estagnada. Para o cientista político Bruno Carazza, autor do livro “Dinheiro, Eleições e Poder”, o gargalo está na distribuição de competências e na ausência de incentivos corretos. Em declaração à imprensa, ele destacou que “não é razoável transferir mais recursos para áreas que não conseguem executar nem o básico com o que já recebem”.
A questão central, portanto, não é apenas a escassez de verbas, mas a completa falta de organização administrativa. Estados como o Rio de Janeiro, que há décadas amargam crises fiscais, são exemplos práticos de como a má gestão transforma qualquer orçamento em insuficiência crônica. Em contrapartida, municípios que adotaram práticas de governança, como planejamento estratégico e metas claras, conseguiram melhorar indicadores mesmo com recursos limitados. Um caso emblemático é o de Sobral, no Ceará, que, sem ser uma potência econômica, alcançou índices educacionais invejáveis ao priorizar a gestão. O segredo, como ressaltou o ex-governador Cid Gomes em entrevista à Rádio O POVO/CBN, não foi gastar mais, mas “gastar bem, com foco em resultado e monitoramento constante”.
Por que isso importa? Em um país que discute reformas estruturais, como a administrativa, há uma miopia perigosa em acreditar que a simples mudança de regras fiscais resolverá o problema. Especialistas ouvidos pelo FORTIS NEWS, em caráter reservado, alertam que a eficiência do setor público depende de uma revolução cultural, que envolve meritocracia, avaliação de desempenho e transparência radical. Sem isso, qualquer ajuste fiscal será mero paliativo. O economista-chefe de uma renomada instituição financeira, que preferiu não se identificar, comparou a situação a uma empresa que, mesmo com capital de giro abundante, vai à falência por má administração. “O Brasil é essa empresa: tem receita, mas não tem gestão”, sintetizou em análise técnica enviada a clientes.
A visão liberal, defendida por veículos como a Revista Oeste e a Gazeta do Povo, enxerga nesse cenário uma oportunidade para repensar o papel do Estado. Em vez de ampliar a máquina, é preciso enxugar estruturas, profissionalizar carreiras e, sobretudo, criar mecanismos de responsabilização. O ministro da Economia, Paulo Guedes, em discurso recente no Fórum de Davos, já havia sinalizado na direção, ao afirmar que “o Brasil precisa aprender a gastar melhor, e não apenas gastar”. A fala, embora criticada por setores desenvolvimentistas, encontra eco em estudos do Banco Mundial que estimam que a ineficiência na gestão pública brasileira custa, por ano, o equivalente a 13% do PIB, um rombo que nenhum pacote de estímulo consegue cobrir.
No entanto, é preciso reconhecer o contraponto: há quem argumente que a baixa eficiência é, em parte, consequência do subfinanciamento crônico de áreas como saúde e segurança. O médico sanitarista Gonzalo Vecina, ex-presidente da Anvisa, defende que, sem contratação adequada de pessoal e manutenção de equipamentos, nenhuma gestão por si só resolve. “Você pode ter o melhor administrador do mundo, mas, se não há insumos básicos, o serviço não sai do papel”, ponderou em entrevista ao jornal Folha de S.Paulo. A provocação, embora válida, não invalida a tese central: mesmo com recursos em abundância, a falta de planejamento e de critérios objetivos continuaria a gerar desperdício.
O caminho, portanto, não é escolher entre mais dinheiro ou melhor gestão, mas integrar as duas agendas. A experiência internacional, especialmente em países como o Chile e a Coreia do Sul, mostra que a eficiência vem de arranjos institucionais que premiam a competência e punem a incompetência. No Brasil, enquanto a classe política insistir em tratar o orçamento como instrumento eleitoral, a discussão sobre gestão permanecerá no papel. A pressão da sociedade, cada vez mais ciente do tamanho do problema, pode ser o fiel da balança. Como concluiu o economista Alexandre Schwartsman, em artigo no portal G1, “enquanto não houver custo político para o mau uso do dinheiro público, a eficiência continuará sendo uma miragem no deserto brasileiro”.
É preciso, ainda, destacar que a tecnologia pode ser uma aliada poderosa nesse processo. A digitalização de serviços, a automação de processos e o uso de dados para tomada de decisão são ferramentas que reduzem custos e aumentam a transparência. Municípios que adotaram prefeituras digitais, como é o caso de São Paulo e Curitiba, registraram queda na burocracia e aumento na satisfação dos cidadãos. Para o especialista em políticas públicas, o cientista político Fernando Schuler, “a inovação é o antídoto para a ineficiência, desde que acompanhada de uma mudança cultural interna”. Em suma, a eficiência é uma escolha, e ela começa na forma como os gestores enxergam o dinheiro público: não como um fim, mas como um meio para entregar resultados.
Por fim, a discussão sobre eficiência não se limita ao âmbito federal. Estados e municípios, que concentram a maior parte dos gastos em serviços essenciais, precisam urgentemente de reformas administrativas e de uma cultura de avaliação de políticas públicas. O Brasil não pode mais se dar ao luxo de confundir volume de gastos com qualidade de entrega. A sociedade exige respostas, e a gestão profissional é o primeiro passo para conquistá-las. Enquanto isso, o debate continua, mas com um norte claro: dinheiro é insuficiente, mas necessário; gestão, indispensável.
Por Renan Filho · 2026-09-21