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Alagoas: a guerra dos cardeais do centrão expõe o custo do presidencialismo de coalizão

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

Arthur Lira (PP-AL) e Renan Calheiros (MDB-AL) transformaram o estado mais pobre do Nordeste em campo de batalha pelo controle do Orçamento federal – enquanto os indicadores sociais de Alagoas patinam, a máquina pública é usada como moeda de troca entre as duas facções do centrão.

Alagoas, o estado com o menor Produto Interno Bruto per capita do Nordeste (R$ 18.120, segundo o IBGE em 2023) e uma taxa de homicídios que supera a média nacional em 40%, tornou-se o palco de uma disputa que expõe a verdadeira natureza do presidencialismo de coalizão brasileiro: a guerra entre o PPP de Arthur Lira e o MDB de Renan Calheiros pelo controle das emendas e dos cargos federais.

De um lado, Lira, presidente da Câmara dos Deputados e líder do chamado “novo centrão”, que construiu sua hegemonia com base na distribuição de emendas Pix e no controle do rito legislativo. Do outro, Renan Calheiros, senador e patriarca do “antigo centrão”, que há mais de três décadas utiliza a máquina pública alagoana como reduto eleitoral. A briga se intensificou nos últimos meses, quando Lira passou a articular uma candidatura própria ao governo do estado para 2026, enfrentando o grupo de Renan, que apoia o atual governador Paulo Dantas (MDB).

O que está em jogo não é ideologia – nenhum dos dois defende reformas estruturantes. Ambos são fiéis ao modelo de estado inchado que tributa demais e entrega pouco. Em 2024, Alagoas destinou 43% de suas receitas correntes a despesas com pessoal, segundo o Tesouro Nacional, valor que supera o limite da Lei de Responsabilidade Fiscal. Enquanto isso, a educação pública estadual ocupa a 23ª posição no Ideb do ensino médio, e a saúde enfrenta um déficit de leitos de UTI que obriga pacientes a serem transferidos para outros estados.

Por que importa: a disputa entre Lira e Renan não é apenas uma briga local. Ela revela como o sistema político brasileiro mantém estados inteiros reféns de oligarquias que se revezam no poder sem jamais enfrentar a raiz dos problemas – o tamanho do estado, a corrupção sistêmica e a ausência de accountability fiscal. Enquanto os dois cardeais brigam por emendas e cargos, o cidadão alagoano arca com a conta de um estado que gasta mal, tributa em excesso e entrega serviços pífios.

Análise FORTIS: a narrativa de que Lira representa uma “renovação” do centrão é falaciosa. Em 2023, sob sua presidência, a Câmara aprovou a PEC da Transição que aumentou os gastos públicos em R$ 145 bilhões, e manteve o orçamento secreto sob novas roupagens. Renan, por sua vez, é o arquétipo do velho estilo: em seu último mandato como presidente do Senado, foi responsável por barrar a reforma administrativa e por aprovar a farra das emendas de relator. Ambos são faces da mesma moeda – a moeda do clientelismo.

Contraponto: defensores de Lira argumentam que ele modernizou a articulação política e que suas emendas garantem investimentos em infraestrutura. Dados oficiais, no entanto, mostram que o volume de emendas Pix cresceu 89% entre 2022 e 2024, mas as obras paralisadas em Alagoas aumentaram 34% no mesmo período, segundo o Tribunal de Contas da União. Já Renan alega que seu grupo trouxe estabilidade para o estado, mas o Índice de Transparência Pública de Alagoas é um dos piores do Brasil (nota 4,2 de 10, segundo a Transparência Internacional Brasil em 2025).

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.