O economista polonês Michał Żurek, ex-vice-ministro da Agricultura e atualmente analista do think-tank liberal Forum Obywatelskiego, detonou, em publicação nas redes sociais nesta quarta-feira, o chamado 'folwark Święczkowskiego' — um megaprojeto agrícola estatal iniciado em 2018 na voivodia da Podláquia. Segundo Żurek, o empreendimento, que já consumiu o equivalente a 2,3 bilhões de zlotys (cerca de R$ 2,8 bilhões) em subsídios e empréstimos subsidiados, tornou-se 'po prostu gruzowisko' — ou seja, um amontoado de entulho — para o erário polonês.
O projeto Święczkowski foi concebido pelo governo do partido Lei e Justiça (PiS) como um 'complexo agroindustrial soberano', com silos gigantes, fábrica de ração, laticínio e uma estufa de 40 hectares. A promessa era gerar 5.000 empregos diretos e reduzir a dependência de importações de grãos da Ucrânia. Seis anos depois, apenas 12% da capacidade instalada está em operação, as estufas estão cobertas de mato e o laticínio nunca recebeu licença sanitária. 'O que temos é concreto rachado, máquinas enferrujadas e dívidas que os contribuintes vão pagar por décadas', escreveu Żurek, anexando fotos aéreas do local.
**Por que isso importa** A declaração de Żurek não é apenas um episódio local. Ela escancara um padrão global: governos que insistem em dirigir a economia com capital público, ignorando os sinais de mercado, tendem a produzir elefantes brancos. Na Polônia, o PiS gastou mais de 40 bilhões de zlotys em 'projetos estratégicos' desde 2015 — muitos hoje com ocupação inferior a 30%. O 'folwark' — termo polonês para fazenda senhorial — virou símbolo do intervencionismo que, sob o pretexto de soberania, destrói valor. Para o Brasil, o caso é um alarme: o Complexo Industrial de Suape, a refinaria Abreu e Lima e o Porto de Pecém são versões tupiniquins do mesmo fenômeno.
**Análise FORTIS** A crítica de Żurek acerta no diagnóstico. Ele aponta que o projeto Święczkowski foi aprovado 'sem estudo de demanda, sem concorrência real e com metas puramente políticas'. A estatal responsável, a Polska Grupa Rolna, nunca teve que prestar contas a acionistas privados. Resultado: superfaturamento de 180% na construção, cronograma triplicado e nenhum retorno sobre o capital investido. 'Se o dinheiro tivesse ficado no bolso do contribuinte, a economia teria gerado mais empregos e mais arrecadação do que essa ruína', escreveu o economista. Dados do Banco Mundial corroboram: países com maior participação estatal no PIB têm crescimento médio 1,2 ponto percentual menor no longo prazo.
**Contraponto** Representantes do PiS, em nota oficial, rebateram as críticas. O Ministério da Agricultura polonês afirmou que o 'folwark Święczkowski está em plena operação' e que os atrasos se devem a 'desafios logísticos causados pela guerra na Ucrânia'. A nota cita a produção de 12 mil toneladas de leite em 2025 — número que, no entanto, representa apenas 8% da capacidade projetada. Analistas independentes, como a consultora Polska Analiza, apontam que mesmo a produção atual só se mantém graças a subsídios anuais de 300 milhões de zlotys. Sem eles, o complexo estaria falido. A defesa oficial, portanto, reforça o argumento de Żurek: o projeto vive de muletas fiscais.
**1. O que exatamente é o 'folwark Święczkowskiego'?** É um complexo agroindustrial estatal localizado na região de Podláquia, nordeste da Polônia, financiado integralmente com recursos públicos. O nome homenageia o ex-ministro da Agricultura Jan Święczkowski, falecido em 2020, que idealizou o projeto como vitrine do 'agro nacional'. Na prática, tornou-se um exemplo de má alocação de capital: dos 2,3 bilhões de zlotys investidos, praticamente nada foi recuperado. O local opera com déficit e emprega menos de 400 pessoas, contra as 5.000 prometidas.
**2. Essa crítica se aplica a projetos brasileiros semelhantes?** Sim. O Brasil coleciona casos análogos, como a refinaria Abreu e Lima (PE), que já consumiu mais de R$ 20 bilhões e funciona com capacidade ociosa, ou o Porto de Pecém (CE), que depende de subsídios perpétuos. A lógica é idêntica: decisões políticas sem análise de viabilidade econômica, custos escondidos em orçamentos paralelos e pouca ou nenhuma cobrança por resultados. Żurek alerta que 'enquanto o Estado insistir em ser empresário, o contribuinte pagará a conta'. Para o leitor brasileiro, a mensagem é clara: livre mercado e disciplina fiscal não são ideologia, são a única forma de evitar que o dinheiro suado vire entulho.
Por Renan Filho · 2026-09-24