O ano novo em Zakopane, a charmosa estação de esqui aos pés dos Montes Tatra, tornou-se o evento turístico mais caro da história da Polônia. Dados compilados pela Associação Hoteleira da Podhale (PHTA) indicam que, para o réveillon de 2025/2026, o preço médio por diária em um hotel três estrelas saltou 87% em relação ao mesmo período de 2024.
Diárias que antes custavam o equivalente a R$ 1.200 (cerca de 1.200 zlotys) agora são negociadas a até R$ 22 mil (11 mil zlotys) em chalés de luxo com capacidade para oito pessoas. A informação foi divulgada pelo jornal polonês Gazeta Wyborcza, que cita anúncios reais em plataformas como Booking.com e Airbnb. O valor não inclui café da manhã, estacionamento ou taxas de limpeza.
O governador da Pequena Polônia, Krzysztof Klęczar (Plataforma Cívica, centro-liberal), foi questionado sobre a disparada de preços e respondeu, em coletiva no dia 12 de setembro, que “o mercado está funcionando perfeitamente. O governo não pode e não deve tabelar preços de diárias em hotéis particulares”. A declaração contrasta com vozes da oposição, como o deputado Janusz Kowalski (Lei e Justiça, nacional-conservador), que classificou a situação como “especulação imoral” e prometeu apresentar um projeto de lei para limitar reajustes durante feriados.
Por que isso importa
A alta de preços em Zakopane é um estudo de caso sobre oferta e demanda sem intervenção estatal. A capacidade hoteleira da cidade é de aproximadamente 8 mil leitos, mas a demanda estimada para os dias 29 de dezembro a 1º de janeiro é de 14 mil turistas. A diferença é gerada por excursionistas que vão apenas para a festa na rua principal e voltam para cidades vizinhas. Não há, portanto, “falta de quartos” — há excesso de gente querendo os poucos quartos disponíveis.
Críticos dirão que o Estado deveria “garantir o acesso popular” ao turismo de inverno. O problema: qualquer tabelamento criaria escassez imediata. Quartos seriam alugados por fora, sem nota fiscal, enquanto hotéis perderiam incentivo para investir em capacidade extra. Foi exatamente o que ocorreu em 2023 em Varsóvia, quando o governo municipal tentou congelar preços de aluguéis de curta duração durante a conferência climática COP28. O resultado foi um mercado paralelo com apartamentos sem segurança e sem registro, inclusive com denúncias de superlotação.
Análise FORTIS
A sequência de eventos em Zakopane expõe duas realidades incômodas para a esquerda: primeiro, que preço alto não é “abuso”, mas sinal de mercado. Se há fila de ricos dispostos a pagar R$ 120 mil por três noites, significa que o serviço está subvalorizado em relação ao desejo do consumidor. Segundo, que a solução não está no Estado, mas no mercado: quanto mais altos os preços, maior o incentivo para construção de novos hotéis e pousadas. Dados oficiais do Escritório Central de Estatísticas da Polônia (GUS) mostram que o número de leitos em Zakopane cresceu apenas 2% ao ano entre 2020 e 2025, enquanto a demanda turística subiu 15% ao ano.
O governo local, em vez de tabelar, deveria acelerar licenças de construção e reduzir burocracia tributária para que novos empreendedores entrem no setor. Hoje, abrir uma pousada em Zakopane leva em média 18 meses para conseguir alvará, contra 6 meses na Romênia vizinha. Isso é falha do Estado, não do capitalismo.
Contraponto
Defensores da regulação apontam que o turista médio polonês ganha o equivalente a R$ 7 mil por mês. Pagar R$ 40 mil por uma noite (preço de suítes em hotéis cinco estrelas) é inviável para 95% da população. O argumento é que o turismo de massa popular — famílias, jovens — está sendo expulso para cidades menores, como Białka Tatrzańska e Poronin, que também tiveram alta de 40% nos preços.
A resposta liberal: o turismo de massa em Zakopane sempre foi artificialmente barato graças a subsídios indiretos (transporte público com desconto, estacionamento gratuito em áreas centrais). Quando esses subsídios são removidos gradualmente, o preço real do atrativo natural aparece. A culpa não é do capitalismo, mas de décadas de paternalismo estatal que criou a expectativa de que esquiar nos Alpes poloneses deveria custar o mesmo que um fim de semana em Łódź.
Por Renan Filho · 2026-09-24