Fontes diplomáticas turcas confirmaram à imprensa polonesa que o governo de Recep Tayyip Erdogan apresentou, em caráter exploratório, a ideia de um “Pacto de Defesa do Oriente Médio” (PDOM) que incluiria a Polônia como membro observador ou parceiro estratégico. A proposta, ainda sem documento formal, foi discutida em reuniões de chancelaria nos últimos dias e visa criar um bloco militar alternativo para conter o expansionismo iraniano na região.
O contexto é conhecido: o Irã, sob sanções internacionais, ampliou seu programa de mísseis balísticos e o apoio a milícias no Iraque, Síria e Iêmen. A Turquia, que já rivaliza com Teerã por influência no Cáucaso e na Ásia Central, vê na Polônia — um dos principais aliados dos EUA na Europa Oriental — um ator capaz de articular interesses ocidentais sem os entraves burocráticos da Otan. “A ideia é criar uma arquitetura de segurança mais enxuta, com menos amarras e mais capacidade de resposta rápida”, afirmou uma fonte do Ministério das Relações Exteriores turco à agência Anadolu, sob condição de anonimato.
Por que isso importa? Para a Polônia, um país que mais que dobrou seus gastos militares desde 2022 e busca diversificar suas alianças além da Otan, a proposta turca pode representar uma via para reduzir a dependência dos Estados Unidos. Varsóvia já demonstrou insatisfação com os altos custos de manter tropas americanas em seu território — estimados em US$ 2 bilhões ao ano, parte dos quais repassados ao contribuinte polonês. Um pacto regional comandado por Ancara, por outro lado, ofereceria um modelo mais barato e geograficamente focado nos interesses poloneses: conter a Rússia pelo flanco sul e, ao mesmo tempo, frear o Irã no Oriente Médio.
A análise FORTIS enxerga a proposta com lupa liberal-conservadora. Do ponto de vista de livre mercado, uma aliança militar descentralizada e com menos burocracia pode reduzir os custos de defesa para os contribuintes poloneses e turcos. Hoje, a Otan exige contribuições mínimas de 2% do PIB, mas cada país gasta sem transparência nos projetos conjuntos. O PDOM, se implementado, poderia funcionar como um consórcio enxuto: cada membro contribui com tropas e equipamentos conforme sua capacidade, sem escritórios inchados em Bruxelas. A soberania nacional seria preservada, já que não haveria um comando unificado supranacional nos moldes da Otan.
Contudo, há riscos. O Irã reagiu com duras críticas. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores iraniano, Nasser Kanaani, classificou a ideia como “hostil e desestabilizadora” em nota oficial divulgada na terça-feira. “A Turquia tenta importar rivalidades da Otan para o coração do mundo islâmico”, disse. De fato, incluir a Polônia na equação religiosa pode acirrar tensões sectárias: Varsóvia é um país majoritariamente católico, com histórico de apoio a grupos curdos que o Irã considera terroristas. A proposta, portanto, pode ser um tiro no pé para a estabilidade regional.
O contraponto liberal-conservador também precisa considerar os custos de oportunidade. A Polônia, ao embarcar em um pacto com a Turquia, pode alienar os Estados Unidos — seu principal parceiro de defesa desde 1999. Embora a Otan não proíba alianças paralelas, Washington já demonstrou incômodo com iniciativas que diluem seu comando. A Casa Branca, em resposta a perguntas da imprensa, limitou-se a dizer que “acompanha com interesse” as movimentações, mas que “a segurança da Europa continua sendo responsabilidade da Otan”. Para o contribuinte polonês, qualquer desvio de recursos para um novo pacto pode significar menos investimento em infraestrutura interna ou mais impostos — algo que o governo do partido Lei e Justiça (PiS) tenta evitar a todo custo.
Em resumo, a ideia turca é audaciosa e tem méritos de eficiência, mas carrega riscos geopolíticos elevados. A FORTIS acredita que o caminho mais sensato é o aprofundamento do diálogo bilateral sem compromissos formais imediatos. Varsóvia deve testar a disposição turca em reduzir tarifas de importação para produtos agrícolas poloneses como contrapartida, já que Ancara mantém barreiras comerciais elevadas. Um pacto só vale a pena se gerar ganhos econômicos concretos — não apenas promessas de segurança.
Por Renan Filho · 2026-09-26