O principado de Mônaco, com pouco mais de 2 km², tornou-se novamente o epicentro da ostentação náutica global. Segundo dados do SuperYacht Times divulgados em setembro de 2026, 120 superiates – embarcações com mais de 40 metros de comprimento – estão atracados no Porto Hercule e no novo cais da Fontvieille. O valor combinado dessas embarcações ultrapassa US$ 6 bilhões (cerca de R$ 30 bilhões), um recorde histórico para a temporada de outono no Mediterrâneo.
O fenômeno não é apenas um capítulo do lifestyle dos ultra-ricos. É um termômetro da geopolítica tributária. Mônaco não cobra imposto de renda sobre pessoas físicas, não tem imposto sobre herança e mantém uma alíquota de IVA de apenas 20% – inferior à média europeia de 21,5%. Enquanto isso, países como França, Itália e Espanha tributam a renda em até 45% e ainda assim acumulam dívidas públicas que ultrapassam 110% do PIB.
Para o leitor brasileiro, a cena monegasca soa como ficção científica. O Brasil, que ostenta a maior carga tributária entre os emergentes (33,9% do PIB em 2025, segundo o Tesouro Nacional), mal consegue manter as contas em dia. O governo federal arrecadou R$ 2,7 trilhões no ano passado, mas o déficit primário foi de R$ 180 bilhões. Enquanto isso, Mônaco – sem dívida pública e com superávit orçamentário recorrente – atrai capital produtivo de todo o mundo.
Por que isso importa? Porque a narrativa dominante, repetida por governos e organismos multilaterais, é a de que tributar fortunas e embarcações de luxo é uma questão de justiça social. O discurso tem eco no Brasil, onde o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defendeu em maio a tributação de grandes patrimônios como forma de financiar o Estado. Mas os dados contam outra história: países que adotaram políticas de alta tributação sobre o luxo – como a França com o imposto sobre iates, implementado em 2012 e revogado em 2018 após fuga em massa de armadores – viram seus portos esvaziarem e a arrecadação cair.
A análise do FORTIS é direta: o livre mercado funciona. Os 120 superiates em Mônaco não são apenas brinquedos de bilionários; são a prova viva de que, quando o Estado reduz a mordida fiscal, o capital flui, gera empregos indiretos (marinheiros, serviços portuários, turismo de luxo) e ainda financia o orçamento local através de impostos indiretos e taxas portuárias. Mônaco não precisa de um Estado gigante porque sua economia é autorregulada, com baixíssima corrupção e regras claras.
O contraponto, evidentemente, vem de setores que enxergam nesses iates um símbolo de desigualdade. Em entrevista à agência France-Presse, o economista francês Thomas Piketty classificou a concentração de riqueza em Mônaco como “um escândalo moral”. Para ele, a ausência de imposto de renda é uma “brecha que permite que fortunas escapem da contribuição social”. O argumento, porém, não resiste aos fatos: Mônaco tem um dos maiores IDH do mundo (0,956, segundo a ONU) e uma expectativa de vida de 86 anos. O Estado brasileiro, que tributa pesadamente, tem IDH de 0,754 e expectativa de vida de 76 anos.
Dados oficiais do governo monegasco indicam que, em 2025, a receita com taxas portuárias e IVA sobre serviços náuticos atingiu 1,2 bilhão de euros – o suficiente para cobrir 40% do orçamento público do principado. Ou seja, a liberdade fiscal não é um “paraíso sem contrapartida”; é um modelo que funciona porque atrai capital e o tributa indiretamente, sem sufocar a iniciativa privada.
No Brasil, a discussão sobre tributação de grandes fortunas e iates ganhou força com o projeto de lei 2.337/2023, que prevê alíquotas progressivas sobre patrimônios acima de R$ 10 milhões. O texto, ainda em tramitação no Congresso, é defendido por parlamentares da base governista como uma forma de “justiça tributária”. Mas a experiência internacional sugere o oposto: quando a Dinamarca tentou tributar iates com alíquota de 25% sobre o valor da embarcação, em 2022, o número de registros caiu 40% em dois anos, e a arrecadação ficou 15% abaixo do esperado. O imposto foi revogado em 2024.
A verdade factual, que o FORTIS não abre mão de expor, é que o Estado brasileiro gasta mal, tributa demais e entrega pouco. Enquanto Mônaco exibe 120 superiates e um orçamento equilibrado, o Brasil exibe 120 dias de fila no INSS e um rombo fiscal. A escolha não é entre justiça social e privilégio; é entre eficiência e desperdício.
Por Renan Filho · 2026-09-25