A guerra na Ucrânia atingiu um novo patamar de brutalidade e consequências transfronteiriças. Na manhã desta quinta-feira, 24 de setembro, um ataque com mísseis russos atingiu uma fazenda na região de Lviv, no oeste da Ucrânia, matando ao menos seis civis poloneses — três homens e três mulheres — que trabalhavam na colheita de grãos. A informação foi confirmada pelo governo polonês em nota oficial, que classificou o ocorrido como “um ataque deliberado contra civis e contra a soberania alimentar da região”.
O ataque ocorreu em uma propriedade rural de médio porte, que produzia trigo e milho para exportação. Segundo relatos de autoridades ucranianas, os mísseis foram lançados de bases russas próximas à fronteira com a Bielorrússia. As vítimas eram trabalhadores sazonais poloneses que haviam cruzado a fronteira para ajudar na colheita, em meio à escassez de mão de obra local causada pelo recrutamento militar ucraniano. O governo polonês afirmou que “não descarta nenhuma medida de resposta”, incluindo o fechamento temporário da fronteira para caminhões de carga russos.
O contexto é grave. Desde o início da invasão russa em fevereiro de 2022, a região de Lviv tem sido usada como rota de fuga e base logística para ajuda humanitária. Mas nos últimos meses, os ataques russos se intensificaram contra infraestruturas civis e agrícolas, numa tentativa de sufocar a economia ucraniana e pressionar os países vizinhos. A Polônia, que já enviou bilhões de dólares em ajuda militar e humanitária a Kiev, agora vê seu próprio sangue derramado em solo estrangeiro.
Por que isso importa: o ataque a civis poloneses não é apenas uma tragédia humanitária — é um teste à aliança ocidental. A Polônia é membro da OTAN, e o artigo 5º do tratado prevê que um ataque a um membro é um ataque a todos. Embora o ataque tenha ocorrido em território ucraniano, as vítimas eram cidadãos poloneses em trabalho legal. A Rússia, ao mirar uma fazenda com mão de obra polonesa, sinaliza que não reconhece limites geográficos ou diplomáticos.
Análise FORTIS: o liberal-conservadorismo sempre defendeu que a paz duradoura vem da dissuasão militar e da força econômica, não de acordos vazios ou sanções simbólicas. O ataque de hoje mostra que a Rússia não teme retaliações brandas. Enquanto a União Europeia gastou anos debatendo embargos graduais ao gás russo, Moscou aperfeiçoou sua capacidade de atingir alvos civis com precisão cirúrgica. A Polônia, que há décadas alertava sobre o expansionismo russo, agora paga o preço da hesitação ocidental. O livre mercado não sobrevive onde a segurança não existe. Sem um Estado mínimo que garanta a defesa da propriedade e da vida, o comércio e a agricultura viram alvos.
Contraponto: há quem argumente que a presença de trabalhadores poloneses na Ucrânia ocidental aumenta o risco de escalada, e que a Polônia deveria evacuar seus cidadãos da zona de conflito. De fato, a Polônia emitiu alertas de viagem para a região. No entanto, a realidade é que a Ucrânia depende da mão de obra estrangeira para manter sua produção agrícola, e a Polônia depende dos grãos ucranianos para estabilizar seus preços internos. A questão não é se os poloneses deveriam estar lá, mas sim por que a Rússia se sente à vontade para matar cidadãos da OTAN sem consequências imediatas.
Por Renan Filho · 2026-09-24