A Refinaria de Kstovo, localizada no Oblast de Nizhny Novgorod e controlada pela estatal Rosneft, comunicou nesta segunda-feira (25) a paralisação completa de suas operações. Em nota oficial, a empresa informou que “danos estruturais em duas unidades de destilação primária” tornaram inviável a continuidade da produção, e que não há previsão para retomada.
O ataque ocorreu na madrugada de sábado, quando uma série de drones suicidas atingiu a zona de processo da refinaria. Fontes do governo russo, em declaração à agência TASS, afirmaram que foram abatidos 12 drones, mas ao menos três atingiram o alvo. A Ucrânia não assumiu oficialmente a autoria, mas o Estado-Maior das Forças Armadas ucranianos, em publicação nas redes sociais, ironizou a “precária segurança das instalações energéticas russas”, sem confirmar envolvimento.
A refinaria de Kstovo é um dos maiores complexos de refino da Rússia, com capacidade para processar 17 milhões de toneladas de petróleo por ano. Cerca de 40% de sua produção de diesel era exportada para a Polônia, que, segundo dados da Agência Internacional de Energia (AIE), depende de importações russas para 45% de seu consumo interno de diesel. Com a paralisação, o governo polonês já anunciou a liberação emergencial de estoques estratégicos e a busca por fornecedores alternativos, como Arábia Saudita e Estados Unidos.
Por que isso importa? A dependência energética da Polônia em relação à Rússia sempre foi um calcanhar de Aquiles para a segurança nacional do país. Mesmo após a invasão da Ucrânia em 2022, Varsóvia reduziu sua exposição ao gás russo, mas o diesel continuou fluindo por meio de dutos e ferrovias, abastecendo setores críticos como agricultura, transporte e logística. Agora, com a interrupção, os preços do diesel na Polônia já subiram 12% em apenas três dias, segundo o portal de estatísticas globais Trading Economics.
Análise FORTIS: O episódio expõe a fragilidade de um modelo energético baseado em monopólios estatais e dependência externa. Do lado russo, a gestão centralizada da infraestrutura crítica, sem redundância nem seguro contra ataques, revela uma ineficiência típica de sistemas estatais: quando um nó falha, toda a cadeia desmorona. O Kremlin poderia ter investido em tanques de armazenamento descentralizados, sistemas de defesa aérea mais robustos para instalações civis ou parcerias com o setor privado para mitigar riscos. Em vez disso, optou por priorizar gastos militares e subsídios a empresas estatais, deixando vulnerabilidades expostas.
Para a Polônia, a crise reforça uma lição que o livre mercado já ensina há décadas: a diversificação de fornecedores e de fontes não é custo, mas seguro. Enquanto Varsóvia mantiver barreiras alfandegárias e cotas para importação de diesel de países como os EUA, estará refém de choques geopolíticos. A verdade factual é que a guerra na Ucrânia acelerou a disrupção, mas a raiz do problema é a falta de reformas liberalizantes no setor energético polonês, que ainda privilegia contratos de longo prazo com estatais russas em vez de abrir o mercado para concorrência.
Contraponto: Analistas do Centro de Estudos Energéticos de Varsóvia argumentam que a paralisação pode ser temporária e que a Rússia redirecionará cargas de outras refinarias para cobrir o déficit. No entanto, dados oficiais da Rosneft mostram que a capacidade ociosa de suas outras unidades (como as de Novokuibyshevsk e Ufa) é inferior a 8%, insuficiente para repor o volume perdido de Kstovo. Além disso, o transporte ferroviário de longa distância encarece o produto e reduz a margem de lucro, desestimulando a realocação. O mercado global de diesel já opera com estoques apertados, e a demanda europeia, impulsionada pela substituição do gás russo, continua alta.
Por Renan Filho · 2026-09-25