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Internacional

„Na rakiecie”: Zelensky responde com ironia a jornalista que sugeriu viagem a Moscou — e expõe a hipocrisia europeia

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-25

Em meio à pressão por negociações diretas com o Kremlin, o presidente ucraniano deu uma resposta curta e afiada a um repórter polonês que o questionou sobre uma suposta visita a Moscou. A reação expõe a falta de realismo das propostas de “paz a qualquer custo” que circulam entre as capitais europeias.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, deu uma resposta direta e cortante a um jornalista polonês que o questionou, durante uma coletiva em Varsóvia nesta quinta-feira (25), sobre a possibilidade de viajar a Moscou para retomar negociações de paz. A pergunta, feita em tom provocativo, sugeria que o líder ucraniano estaria “recusando o diálogo”. A resposta foi instantânea: „Na rakiecie” — expressão polonesa que significa algo como “vai no foguete”, uma forma grosseira de mandar alguém dar uma volta. A cena foi registrada por câmeras de TV e rapidamente viralizou nas redes sociais.

O contexto da pergunta era claro: nos últimos dias, cresceu o discurso, especialmente entre líderes europeus de centro-direita e alguns setores da imprensa conservadora do continente, que defendem que a Ucrânia deve “ceder terreno” em troca de um cessar-fogo imediato. O primeiro-ministro da Hungria, Viktor Orbán, e o ex-premiê italiano Giuseppe Conte já sugeriram publicamente que Zelensky deveria sentar à mesa com Vladimir Putin. A pressão aumentou após a recente ofensiva russa na região de Kharkiv, que intensificou o temor de uma escalada nuclear.

Zelensky, no entanto, não comprou a narrativa. Em tom seco, afirmou que “a paz não se faz com apaziguamento”, e que qualquer proposta que não inclua a retirada total das tropas russas do território ucraniano é “uma armadilha para o Ocidente”. Ele relembrou os acordos de Minsk, assinados em 2014 e 2015, que, segundo ele, “foram usados pela Rússia para se rearmar e invadir de novo”.

Por que isso importa

A resposta de Zelensky expõe uma divisão profunda no campo dos aliados da Ucrânia. De um lado, há os países bálticos, a Polônia e o Reino Unido, que defendem o fortalecimento militar ucraniano e a manutenção das sanções contra Moscou. Do outro, França, Alemanha e Itália, sob pressão de seus setores industriais e energéticos, já começam a articular uma “saída negociada” que, na prática, congelaria o conflito com a anexação de partes do território ucraniano. Para o mercado, isso representa incerteza adicional: um cessar-fogo frágil, sem garantias de longo prazo, tende a gerar volatilidade em commodities, especialmente gás e trigo.

A fala de Zelensky também joga luz sobre o custo real do “paz a qualquer custo”. Dados do Banco Mundial e do FMI indicam que a Ucrânia perdeu cerca de 35% do PIB desde o início da guerra, e que a reconstrução exigirá investimentos de ao menos US$ 500 bilhões. Se a Rússia mantiver o controle sobre as regiões ocupadas, esse custo será repassado aos contribuintes europeus e, em última instância, ao mercado global, via inflação de alimentos e energia.

Análise FORTIS

Do ponto de vista liberal-conservador, a posição de Zelensky é a única coerente com o princípio de soberania nacional. Um país que cede território por pressão externa não é soberano — é protetorado. A pressão europeia por negociações imediatas reflete, na verdade, o fracasso das políticas de Estado mínimo aplicadas ao setor de defesa: a Europa gastou décadas desmantelando seus exércitos e agora não tem capacidade de dissuasão. O resultado é que a segurança do continente depende de uma Ucrânia sangrando, enquanto países como a Alemanha ainda compram gás russo via rotas indiretas.

A resposta „na rakiecie” pode parecer rude, mas é um alerta: a paciência de Kiev com as “soluções mágicas” de Bruxelas está no fim. O que está em jogo não é apenas a integridade territorial ucraniana, mas a credibilidade do Ocidente como conjunto de nações que respeitam o direito internacional. Se a Ucrânia for forçada a aceitar um acordo desfavorável, o sinal enviado a outros países — de Taiwan à Moldávia — é que a agressão compensa.

Contraponto

Há quem argumente, especialmente entre diplomatas europeus veteranos, que a guerra não pode ser vencida no campo de batalha e que a continuação do conflito apenas aumenta o sofrimento civil. Dados da ONU indicam mais de 10 mil civis mortos e 5 milhões de refugiados. Para esses analistas, a insistência de Zelensky em uma “vitória total” é irrealista e impede qualquer avanço diplomático. O próprio presidente francês, Emmanuel Macron, já afirmou que “não devemos humilhar a Rússia”. A crítica tem fundamento empírico: guerras longas tendem a se arrastar por anos sem solução clara. No entanto, a história recente mostra que acordos que premiam o agressor — como o de Munique em 1938 — geram custos muito maiores no longo prazo.

**1. A expressão „na rakiecie” é ofensiva no contexto polonês?** Sim, é uma gíria de baixo calão, equivalente a mandar alguém “pastar” ou “dar uma volta”. O uso por um Chefe de Estado é incomum e revela o nível de exasperação de Zelensky com a pressão por negociações com Moscou.

**2. A Polônia apoia a posição de Zelensky ou a da França?** A Polônia é um dos mais firmes aliados da Ucrânia, tendo recebido milhões de refugiados e enviado armas. O governo polonês, de orientação conservadora, critica abertamente as propostas de apaziguamento vindas de Berlim e Paris. A resposta do presidente ucraniano, portanto, foi bem recebida pela opinião pública polonesa, que vê a Rússia como ameaça existencial.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.