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Internacional

Polônia aprova retorno à energia nuclear e desafia burocracia verde da União Europeia

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

O parlamento polonês aprovou nesta quarta-feira (23) uma lei que autoriza a construção de usinas nucleares no país, sinalizando uma guinada estratégica para garantir soberania energética e reduzir a dependência do carvão, sem se submeter integralmente às metas climáticas impostas por Bruxelas.

Em uma sessão marcada por debates acalorados, o Sejm (câmara baixa do parlamento polonês) aprovou com 287 votos favoráveis, 142 contrários e 12 abstenções o projeto de lei que estabelece o marco regulatório para a construção e operação de centrais nucleares no país. A medida, de autoria do governo do primeiro-ministro Mateusz Morawiecki, representa a tentativa mais concreta de Varsóvia em décadas de diversificar sua matriz energética e escapar da dependência quase total do carvão, que ainda responde por cerca de 70% da geração elétrica polonesa.

O texto aprovado cria um fundo estatal de investimento em energia nuclear, com aporte inicial de 15 bilhões de zlotys (aproximadamente R$ 18 bilhões), e estabelece regras simplificadas para licenciamento ambiental e seleção de fornecedores estrangeiros. A primeira usina, com capacidade estimada entre 1.000 e 1.500 MW, deve começar a operar até 2035, segundo o cronograma oficial divulgado pelo Ministério do Clima e Meio Ambiente.

A decisão de Varsóvia ocorre em meio a um movimento crescente de países europeus que reavaliam o papel da energia nuclear na transição energética. França, Reino Unido e, mais recentemente, a própria Alemanha — que viveu um arrependimento público após desligar suas últimas usinas em 2023 — já sinalizaram que a energia atômica é parte inevitável de qualquer plano sério de descarbonização. A Polônia, no entanto, enfrenta resistência adicional dentro da União Europeia, onde a Comissão Europeia ainda classifica o nuclear como uma tecnologia controversa na chamada Taxonomia Verde.

A aprovação da lei não ocorre sem críticas. Organizações ambientalistas polonesas, como a Fundacja ClientEarth Prawnicy dla Ziemi, afirmaram em nota que o projeto ignora os riscos de acidentes e o problema do armazenamento de resíduos radioativos. “A energia nuclear é cara, lenta de construir e deixa um legado tóxico para as próximas gerações”, declarou a organização em comunicado. O partido de oposição Lewica (Esquerda) também se posicionou contra, argumentando que os recursos poderiam ser melhor aplicados em fontes renováveis como eólica e solar.

Por outro lado, a decisão conta com amplo apoio de setores industriais e do governo. O ministro do Clima, Piotr Wozniak, declarou à imprensa local que “sem nuclear, a Polônia jamais alcançará a neutralidade climática sem sacrificar sua competitividade econômica”. Ele também destacou que o país não pode mais depender de importações de gás natural, especialmente após a crise energética desencadeada pela guerra na Ucrânia e as sanções à Rússia.

**Por que isso importa para o Brasil e para a América Latina**

A experiência polonesa oferece lições diretas para países como o Brasil, que há décadas discute a retomada de seu programa nuclear sem avanços concretos. Enquanto a Polônia enfrenta o desafio de substituir o carvão, o Brasil possui uma das matrizes mais limpas do mundo, mas sofre com a falta de planejamento energético de longo prazo. A usina de Angra 3, por exemplo, acumula atrasos e estouros de orçamento desde os anos 1980, resultado de má gestão estatal e interferência política.

O modelo polonês, ao contrário, busca atrair capital privado e parcerias internacionais. O governo já negocia com a Westinghouse (EUA), a EDF (França) e a Korea Hydro & Nuclear Power (Coreia do Sul) para o fornecimento de reatores. A lógica de livre mercado é clara: ao invés de subsidiar eternamente fontes intermitentes como solar e eólica — que exigem backup de termelétricas a gás ou carvão —, a nuclear oferece geração de base estável, com baixíssima emissão de carbono.

**Análise FORTIS**

A decisão polonesa é um sopro de realismo em meio ao delírio ideológico que domina a agenda climática europeia. Enquanto a Alemanha, sob pressão dos verdes, desligou suas usinas nucleares e se viu forçada a reativar centrais a carvão e importar gás de países como o Catar e os EUA — a um custo muito maior —, a Polônia aprendeu com o erro alheio. O país entendeu que segurança energética e soberania nacional não podem ser sacrificadas no altar de uma narrativa ambientalista que ignora a física e a economia.

O Estado polonês, historicamente pesado e ineficiente, ao menos demonstra capacidade de aprender com os próprios fracassos. A lei aprovada não é perfeita: o fundo estatal de 15 bilhões de zlotys pode se tornar um poço de ineficiência se não houver controle rigoroso e participação privada majoritária. Mas o caminho está traçado na direção certa: mais oferta de energia, menos dependência externa e respeito à realidade técnica.

**Contraponto**

É justo registrar que a energia nuclear não é isenta de riscos. O desastre de Chernobyl (1986) e o acidente de Fukushima (2011) são lembranças trágicas do que pode dar errado quando a segurança é negligenciada ou quando eventos naturais extremos superam as defesas projetadas. Além disso, o custo de construção de usinas nucleares tem aumentado em todo o mundo, com projetos na Europa e nos EUA frequentemente estourando orçamentos em bilhões de dólares. Um relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) de 2023 indicou que o custo nivelado da energia nuclear (LCOE) pode ser até três vezes maior que o de parques eólicos onshore em condições ideais.

No entanto, esses dados precisam ser contextualizados. O LCOE da eólica e solar não inclui os custos de armazenamento em baterias ou de backup térmico para períodos sem vento ou sol — custos que, em uma matriz com alta penetração de renováveis intermitentes, podem tornar a conta final muito mais salgada. A França, que obtém cerca de 70% de sua eletricidade de usinas nucleares, tem uma das eletricidades mais baratas e com menor emissão de CO₂ da Europa. Os fatos, mais uma vez, falam mais alto que a ideologia.

**1. A Polônia realmente precisa de energia nuclear ou poderia investir apenas em renováveis?**

Precisa, sim. A matriz polonesa é excessivamente dependente de carvão, e a substituição direta por eólica e solar exigiria um investimento maciço em armazenamento de energia e redes de transmissão, além de backup de termelétricas a gás. A nuclear oferece geração de base estável e de baixo carbono, algo que as renováveis intermitentes sozinhas não conseguem garantir. Dados da Agência Europeia do Ambiente mostram que a Polônia tem um dos piores índices de qualidade do ar do continente, diretamente ligado à queima de carvão. A nuclear é a única alternativa viável em larga escala para reduzir essa poluição sem desindustrializar o país.

**2. O Brasil deveria seguir o exemplo polonês e retomar seu programa nuclear com mais força?**

Sim, mas com lições. O Brasil precisa de um marco regulatório estável que atraia capital privado, algo que a Polônia está tentando fazer. O programa nuclear brasileiro, com Angra 3 paralisada e Angra 1 e 2 envelhecendo, é um exemplo clássico de má gestão estatal. Se o governo Lula (ou qualquer outro) quiser levar a sério a segurança energética e a descarbonização, precisa aprender com o modelo polonês de parcerias internacionais e financiamento misto, em vez de tratar a nuclear como um projeto de engenharia estatal inchado e sujeito a interesses políticos.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.