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Economia

Milhares de poloneses tiram licença médica com código “C”: o Estado paga a conta da ressaca

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

Mais de 150 mil atestados com o código “C” foram emitidos na Polônia em 2025, segundo dados do ZUS. O sistema público de saúde e os contribuintes arcam com os custos de uma escolha pessoal — e o debate sobre responsabilidade individual volta à tona.

O Instituto de Seguridade Social da Polônia (ZUS) revelou que, em 2025, foram emitidos 152.347 atestados médicos com o código “C” — aquele que indica que a doença está diretamente relacionada ao consumo de álcool. O número representa um aumento de 8% em relação ao ano anterior e reacende o debate sobre os limites do Estado do bem-estar social.

O código “C” é uma ferramenta burocrática criada para identificar casos em que a incapacidade para o trabalho decorre de embriaguez ou ressaca. Na prática, é o famoso “atestado de ressaca”. O trabalhador falta ao serviço, apresenta o documento ao empregador e recebe o benefício pago pelo sistema público — que é financiado por todos os contribuintes, inclusive aqueles que não bebem.

A Polônia, assim como a maioria dos países europeus, adota um modelo de seguridade social generoso. O trabalhador afastado por doença recebe, em média, 80% do salário nos primeiros 33 dias, custeados pelo empregador, e depois pelo ZUS. Quando a causa é o álcool, o código “C” não impede o pagamento — apenas sinaliza a origem do problema.

Por que isso importa

O fenômeno expõe uma contradição típica do Estado intervencionista: ao mesmo tempo que tributa pesadamente o consumo de bebidas alcoólicas (cerca de 40% do preço final é imposto), o governo polonês financia o afastamento de quem exagerou na dose. O contribuinte paga duas vezes: na hora de comprar a bebida e na hora de bancar o colega que não trabalhou.

Dados do Escritório Central de Estatística da Polônia (GUS) indicam que o consumo per capita de álcool puro no país é de 11,7 litros por ano, acima da média da União Europeia (9,8 litros). Não surpreende que o código “C” seja um dos mais frequentes entre homens de 25 a 44 anos. O perfil típico do beneficiário é um trabalhador da construção civil, da indústria ou do setor de transportes.

O custo total estimado com licenças “C” em 2025 ultrapassou 1,2 bilhão de zlotys (cerca de R$ 1,6 bilhão). Esse valor poderia ser usado para reduzir a alíquota do imposto de renda ou financiar políticas de saúde preventiva que realmente funcionem — mas, em vez disso, é gasto para cobrir consequências de escolhas individuais.

Análise FORTIS

Sob a ótica liberal-conservadora, o caso polonês ilustra o fracasso de um modelo que desincentiva a responsabilidade pessoal. O Estado não deveria ser um seguro contra a imprudência. Se um trabalhador decide beber além da conta e não consegue trabalhar no dia seguinte, o ônus deveria ser exclusivamente dele — não do conjunto da sociedade.

A esquerda europeia costuma defender que o problema é de saúde pública e que o Estado deve acolher todos os casos sem julgamento moral. Mas os fatos mostram que, ao eliminar as consequências financeiras do comportamento irresponsável, o sistema estimula a repetição do erro. Um estudo do Instituto de Economia do Trabalho de Varsóvia (IBE) apontou que, entre 2020 e 2024, 37% dos trabalhadores que tiraram licença “C” repetiram o afastamento no mesmo ano.

A solução liberal-conservadora seria simples: excluir do benefício os casos comprovadamente decorrentes de álcool. O trabalhador teria o direito de não trabalhar, mas não receberia dinheiro público. Isso reduziria o número de atestados e liberaria recursos para quem realmente está doente — com pneumonia, câncer ou outras doenças legítimas.

Contraponto

Defensores do modelo atual argumentam que a medida seria punitiva e que muitos casos de alcoolismo são doenças crônicas, não meras escolhas. Dados da Organização Mundial da Saúde (OMS) indicam que 2,3% dos poloneses adultos sofrem de transtorno por uso de álcool. Para esses, a licença médica pode ser o primeiro passo para o tratamento.

No entanto, o código “C” não diferencia o dependente químico do trabalhador que bebeu socialmente e passou do ponto. A própria ZUS admite que a maioria dos atestados é de curta duração — 1 a 3 dias —, o que sugere ressaca pontual, não doença crônica. Se o objetivo é tratar o alcoolismo, o Estado deveria investir em clínicas e programas de reabilitação, não em pagar salário para quem está de ressaca.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.