A Polônia disse adeus à era das filas intermináveis e dos guichês lotados. A partir de 1º de dezembro de 2025, entra em vigor a nova sistemática de emissão e uso do dowód osobisty, o documento de identidade nacional, em formato 100% digital, acessível pelo aplicativo governamental mObywatel. Na prática, o cidadão poderá apresentar o documento pelo celular em qualquer repartição pública, banco ou estabelecimento privado que exija identificação, eliminando a necessidade de portar o plástico físico e, em muitos casos, de agendar visitas presenciais.
Segundo o Ministério de Digitalização da Polônia, a mudança reduz em aproximadamente 50% o número de procedimentos que exigiam presença física em cartórios e órgãos públicos. A estimativa é que cerca de 12 milhões de poloneses, cerca de 1/3 da população, já utilizam o aplicativo, número que deve saltar com a obrigatoriedade progressiva do formato digital em diversas transações governamentais.
A digitalização não se resume à simples versão em PDF do documento. O novo sistema integra, via tecnologia de autenticação segura, dados biométricos e um certificado digital avançado reconhecido pela União Europeia. Isso permite que o cidadão assine contratos, abra empresas e até solicite benefícios sociais sem sair de casa. Para os mais céticos em relação à segurança digital, o governo polonês alega que o sistema utiliza criptografia de ponta e que os dados biométricos são armazenados apenas no chip do dispositivo, não em servidores centrais.
Por que isso importa? A medida representa um marco na relação entre Estado e cidadão na Europa Central. Há décadas, a Polônia convive com um serviço público oneroso e ineficiente, herança do centralismo socialista e da burocracia pós-comunista. Qualquer avanço que reduza a máquina estatal é bem-vindo para o contribuinte que financia um Estado que, historicamente, gasta mal e entrega pouco. Com a redução da necessidade de deslocamento, há também ganhos ambientais e de produtividade, uma vez que o tempo dos cidadãos deixa de ser desperdiçado em filas.
Análise FORTIS: a iniciativa polonesa é um exemplo de que modernização do Estado não é sinônimo de mais gasto público ou de controle estatal ampliado. Pelo contrário, trata-se de usar tecnologia para encolher a máquina, reduzir a assimetria de informação e dar autonomia ao cidadão. Em um contexto europeu no qual burocracias nacionais historicamente travam a atividade econômica, a digitalização de documentos é um passo concreto para desburocratizar e destravar investimentos.
Contudo, é preciso estar atento aos riscos. A centralização de dados pessoais e biométricos em um único sistema, ainda que com promessas de segurança, cria um alvo atraente para criminosos cibernéticos. Em 2023, o sistema de saúde polonês sofreu um ataque de ransomware que expôs dados de milhões de pacientes. A pergunta que fica é: o governo polonês está preparado para proteger um banco de dados ainda mais robusto? A experiência brasileira com o vazamento de dados do INSS e da Receita Federal deveria servir de alerta. Nenhuma digitalização é segura sem investimento contínuo em segurança cibernética e em uma estrutura jurídica que puna severamente o uso indevido de dados.
Outro ponto de atenção é a inclusão digital. Idosos, moradores de áreas rurais e pessoas de baixa renda podem ter dificuldades no acesso a smartphones e internet de qualidade. O governo polonês afirma que manterá o documento físico como alternativa, mas a pressão pela adesão digital pode segregar ainda mais quem já é marginalizado digitalmente. A solução ideal seria um programa agressivo de inclusão digital, com distribuição de dispositivos e treinamento, não apenas uma política de 'digitalize-se' da noite para o dia.
Por Renan Filho · 2026-09-24