O presidente da Polônia, Karol Nawrocki, anunciou nesta semana a convocação de eleições suplementares para o Senado, preenchendo a vaga deixada pela renúncia do senador Andrzej Pająk, do partido Lei e Justiça (PiS), que assumiu um cargo no Tribunal de Contas do país. A medida, embora prevista na legislação eleitoral polonesa, reacende o debate sobre o custo operacional da democracia representativa e a eficiência do Estado.
A data escolhida, ainda não divulgada em detalhes pela chancelaria presidencial, deve ocorrer dentro do prazo constitucional de 90 dias após a vacância. A decisão de Nawrocki, publicada em nota oficial no site da Presidência, cumpre o rito legal, mas não esconde o fato de que mais uma estrutura burocrática será mobilizada – com servidores, cédulas, urnas e logística financiada pelo contribuinte – para eleger um único parlamentar.
O contexto é relevante. A Polônia, sob o governo do partido Lei e Justiça (PiS), tem mantido uma política fiscal expansionista, com programas sociais generosos e um setor público que cresce a cada ano. Segundo o relatório do Banco Mundial de 2025, os gastos do governo polonês representam cerca de 44% do PIB, acima da média da União Europeia para países de renda alta. E, no entanto, a eficiência desses gastos é questionável: o Tribunal de Contas polonês (NIK) já apontou, em relatórios de 2024, que 30% dos contratos públicos no país apresentam sobrepreço ou falhas de execução.
A eleição suplementar, embora necessária para manter a composição do Senado, levanta uma questão econômica incômoda: quanto custa, de fato, manter um sistema bicameral com 100 senadores em um país de 38 milhões de habitantes? O custo médio de uma eleição suplementar na Polônia, segundo estimativas da Comissão Eleitoral Nacional (PKW), gira em torno de 15 milhões de złotys (aproximadamente 3,6 milhões de dólares). Isso equivale a 36 mil dólares por voto, considerando a média de comparecimento em eleições suplementares, que costuma ficar abaixo de 30%.
O jurista e economista polonês Ryszard Legutko, em artigo publicado no jornal Rzeczpospolita, defendeu que o sistema eleitoral polonês é caro e burocrático. “A cada eleição suplementar, o Estado gasta dinheiro que poderia ser usado para reduzir tributos ou investir em infraestrutura. A representação política não pode ser um fim em si mesma; ela precisa ser eficiente”, escreveu Legutko. A crítica ecoa a visão liberal-conservadora de que o Estado mínimo não é apenas um ideal filosófico, mas uma necessidade fiscal.
O governo PiS, por outro lado, argumenta que as eleições suplementares são parte do processo democrático e que a manutenção da composição do Senado é essencial para o equilíbrio de poder. Em declaração à agência PAP, o porta-voz do governo, Piotr Müller, afirmou que “a democracia tem custos, mas o custo de não ter representação é maior”. O argumento, embora válido em tese, ignora o fato de que a própria máquina partidária poderia ser mais enxuta.
A análise FORTIS é direta: o problema não está na eleição em si, mas na ausência de uma discussão honesta sobre o tamanho do Estado. A Polônia, assim como o Brasil, a Argentina e grande parte da América Latina, insiste em manter estruturas políticas anacrônicas que consomem recursos escassos. O Senado polonês, com 100 cadeiras, tem um custo anual de manutenção estimado em 90 milhões de złotys (cerca de 21,6 milhões de dólares), segundo dados do orçamento público de 2025. Isso inclui salários, gabinetes, assessores e despesas operacionais.
A eleição suplementar de Nawrocki é, portanto, um microcosmo de um problema maior: a falta de priorização. Enquanto o governo polonês gasta milhões para eleger um senador, os contribuintes poloneses pagam uma das maiores cargas tributárias da Europa Oriental – a alíquota máxima do imposto de renda é de 32%, e o IVA é de 23%. O retorno, no entanto, é mediano: a Polônia ocupa a 23ª posição no Índice de Eficiência do Gasto Público do FMI, atrás de países como a Estônia e a República Tcheca, que gastam menos e entregam mais.
O contraponto necessário: é justo criticar o custo de uma eleição suplementar sem considerar o valor da representação política? Defensores do atual sistema argumentam que o Senado exerce um papel crucial na revisão de leis e na fiscalização do Executivo. Em um país com tradição de governos de coalizão, como a Polônia, a câmara alta pode ser um freio contra abusos de maioria. O problema é que esse freio tem um preço, e a conta vai para o cidadão que já paga impostos elevados.
Para o leitor do FORTIS, a questão central não é abolir o Senado ou ignorar a necessidade de completar a representação. A questão é cobrar eficiência e transparência. Se a eleição suplementar custa 15 milhões de złotys, que tal o governo publicar o custo detalhado e permitir que a sociedade avalie se o gasto se justifica? Afinal, o contribuinte tem o direito de saber quanto paga por cada voto e por cada parlamentar.
A decisão de Nawrocki, embora tecnicamente correta, expõe a contradição de um Estado que gasta mal, tributa demais e entrega pouco. Que essa eleição suplementar sirva ao menos para abrir o debate sobre a reforma administrativa – não apenas na Polônia, mas em todo o mundo que ainda insiste em tratar a política como um fim em si mesma, e não como um meio para servir ao cidadão.
Por Renan Filho · 2026-09-25