A pergunta que ecoa nos lares poloneses e nas mesas de negociação da União Europeia é direta: o carvão vai faltar neste inverno? O vice-primeiro-ministro e ministro da Economia, Konrad Wojnarowski, respondeu de forma objetiva em entrevista à agência PAP nesta quarta-feira (23). A resposta, porém, traz um diagnóstico que vai muito além da logística de estoques.
Wojnarowski afirmou que as reservas estratégicas de carvão do país estão em níveis considerados seguros para os próximos seis meses, mesmo em um cenário de consumo elevado. "Temos estoques nos pátios das minas e nas usinas termelétricas que garantem o funcionamento do sistema elétrico e o aquecimento residencial", declarou o ministro. Ele, no entanto, fez uma ressalva importante: a continuidade desse abastecimento depende de fatores externos, como o preço do gás natural e a disponibilidade de importações.
O contexto é delicado. A Polônia ainda depende de cerca de 70% de sua matriz elétrica do carvão, tanto o extraído localmente na Silésia quanto o importado. Desde 2022, com o embargo ao carvão russo imposto pela UE, Varsóvia passou a importar o minério de países como Indonésia, Austrália e Colômbia. O problema, como apontam analistas de mercado, é que o carvão importado é mais caro e de qualidade inferior ao que era comprado da Rússia, o que encarece a geração de energia.
Por que isso importa? Porque a crise energética na Polônia não é um acidente climático, mas sim o resultado direto de políticas de descarbonização apressadas e mal planejadas, combinadas com a dependência de fontes intermitentes como a solar e a eólica. A União Europeia, sob forte influência de pautas ambientais progressistas, pressionou Varsóvia a acelerar o fechamento de minas e a redução de subsídios ao setor carbonífero. O resultado prático, segundo dados oficiais do governo polonês, foi uma redução de 15% na produção local de carvão entre 2021 e 2025, enquanto a demanda por aquecimento e eletricidade se manteve estável.
Análise FORTIS: O caso polonês é um estudo de caso sobre os limites do planejamento centralizado e da transição energética forçada. O Estado polonês, historicamente intervencionista no setor de mineração, falhou em modernizar as minas e em diversificar a matriz energética a tempo. Ao mesmo tempo, a burocracia de Bruxelas impôs metas de emissões que ignoram a realidade social e econômica de um país que construiu sua riqueza industrial sobre o carvão. A solução de mercado — permitir que a demanda e a inovação tecnológica guiassem a transição — foi substituída por subsídios cruzados e taxas sobre carbono que encarecem a conta de luz para o cidadão comum.
Contraponto: É justo reconhecer que a dependência do carvão tem custos ambientais e de saúde pública reais. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que a poluição do ar na Polônia, causada em grande parte pela queima de carvão em residências, contribui para dezenas de milhares de mortes prematuras por ano. Além disso, a mineração de carvão na Silésia é uma atividade em declínio estrutural, com produtividade baixa e custos trabalhistas elevados. Não se trata, portanto, de defender a manutenção do status quo, mas sim de questionar a velocidade e o método da transição.
A declaração de Wojnarowski, no entanto, expõe uma contradição incômoda para os defensores do Green Deal europeu. O ministro afirmou que, sem o carvão polonês, o sistema elétrico do país entraria em colapso já no pico do inverno, em janeiro e fevereiro. "As renováveis não garantem carga de base. A energia nuclear ainda levará anos para entrar em operação. O gás natural está caro e sujeito a flutuações geopolíticas. O carvão é, neste momento, a única âncora da nossa segurança energética", disse o vice-primeiro-ministro.
A declaração foi corroborada por dados da Operadora do Sistema Elétrico Polonês (PSE), que indicam que a capacidade de geração a partir de carvão representa 45% da potência instalada total do país. Em dias de baixa geração eólica, esse percentual chega a superar 80% da geração real. A dependência é, portanto, uma realidade técnica, não ideológica.
Por Renan Filho · 2026-09-23