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PiS denuncia Donald Tusk por escândalo Zondacrypto: acusações de conivência e omissão regulatória

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-23

O partido Lei e Justiça (PiS) protocolou nesta quarta-feira uma representação criminal contra o primeiro-ministro Donald Tusk, alegando que seu governo falhou deliberadamente em supervisionar a plataforma de criptomoedas Zondacrypto, que teria causado prejuízos a mais de 20 mil investidores poloneses.

A denúncia, assinada pelo presidente do PiS, Jarosław Kaczyński, e protocolada na Procuradoria Distrital de Varsóvia, acusa Tusk de violação do dever de vigilância estatal e de eventual favorecimento à exchange, que operou sem as licenças adequadas até seu colapso em setembro deste ano. O documento cita e-mails internos que supostamente mostram que o gabinete do premiê foi alertado sobre irregularidades na Zondacrypto ainda em 2023, mas optou por não agir.

O escândalo Zondacrypto remonta ao início de 2022, quando a exchange, sediada em Cracóvia, atraiu milhares de investidores com promessas de retornos fixos de 2% ao mês — algo suspeito para um mercado volátil como o de criptomoedas. Investigações jornalísticas posteriores revelaram que a plataforma operava com reservas fracionárias e que parte dos fundos dos clientes foi desviada para contas offshore nas Ilhas Virgens Britânicas. Em agosto de 2024, a empresa suspendeu saques e faliu, deixando um rombo estimado em 450 milhões de euros.

Para o PiS, a omissão de Tusk não foi acidental. Em entrevista coletiva, o porta-voz do partido, Rafał Bochenek, afirmou que “o primeiro-ministro tinha informação privilegiada sobre o esquema, pois um dos sócios da Zondacrypto, Piotr N., contribuiu com 200 mil euros para a campanha eleitoral de 2023 da Coalizão Cívica, partido de Tusk”. A nota oficial do PiS destaca que “o Estado polonês não pode ser refém de doadores de campanha que depois usam a falta de regulação para enganar cidadãos”.

**Por que isso importa** O caso coloca sob os holofotes o debate sobre regulação de criptomoedas na Polônia e na União Europeia. Nos últimos anos, o governo Tusk se mostrou favorável a uma abordagem leve — inspirada pelo princípio de mercado livre — mas sem criar um arcabouço mínimo de proteção ao investidor. A Zondacrypto explorou exatamente esse vácuo legal. Para liberais-conservadores, o episódio é um alerta: o Estado mínimo não significa Estado ausente. Regras claras e fiscalização eficiente são pré-condições para que o mercado funcione, especialmente em setores de alto risco como criptoativos.

**Análise FORTIS** A denúncia do PiS tem evidente motivação política — o partido busca desgastar Tusk a menos de um ano das eleições parlamentares de 2027. Contudo, os fatos são concretos: a Zondacrypto operou sem registro na Komisja Nadzoru Finansowego (KNF, o regulador financeiro polonês) por mais de 18 meses, e o governo foi notificado por ao menos dois denunciantes que trabalhavam na própria exchange. A pergunta que fica é: por que Tusk não agiu? Se houve conflito de interesses, isso é gravíssimo. Se foi apenas negligência administrativa, ainda assim é inaceitável para um líder que se apresenta como gestor competente.

Do ponto de vista do livre mercado, a solução não é proibir criptomoedas ou criar uma agência estatal inchada. A saída passa por: (1) exigir que exchanges tenham reservas comprovadas, auditadas por terceiros independentes; (2) criminalizar a propaganda de retornos fixos sem lastro; e (3) responsabilizar pessoalmente executivos que desviam recursos. Tudo isso pode ser feito sem burocracia excessiva. O erro de Tusk foi confundir “liberdade econômica” com “ausência de regras básicas”.

**Contraponto** Fontes próximas ao primeiro-ministro negam as acusações. Em nota enviada à imprensa, o porta-voz do governo, Jan Grabiec, classificou a representação como “teatro político sem provas”. Segundo ele, “o KNF já investigava a Zondacrypto desde 2023, e foi o próprio governo que, em maio de 2024, incluiu as criptomoedas no projeto de lei de combate à lavagem de dinheiro”. Grabiec também afirmou que a doação de Piotr N. foi legal e declarada, e que Tusk não tem qualquer relação pessoal com o empresário. O premier, em rápida declaração a jornalistas, disse que “quem cometeu crime foi a Zondacrypto, não o Estado”, e que a oposição tenta “desviar o foco dos problemas reais do país”.

Ainda assim, falta transparência. Se o governo sabia do problema e demorou a agir, precisa explicar o motivo. A população polonesa perdeu bilhões de złotys — não por um erro de mercado, mas por uma falha regulatória que mistura complacência e, talvez, favorecimento político.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.