Marina Vlady, nome artístico de Marina de Poliakoff-Baïdaroff, morreu nesta quinta-feira, 24 de setembro de 2026, em Paris. A informação foi confirmada pela filha, a também atriz Masha Méril, em declaração à agência France-Presse. Nascida em 10 de maio de 1938, na França, filha de emigrados russos brancos que fugiram da Revolução Bolchevique, Vlady construiu uma carreira sólida no cinema europeu, mas entrou para a história como a última esposa de Vladimir Vyssotski, um dos maiores poetas e cantores da União Soviética.
A trajetória de Vlady é um testemunho da complexidade do século XX. De um lado, a liberdade artística do Ocidente; do outro, o amor por um homem que era a voz de uma geração sufocada pelo totalitarismo soviético. Ela conheceu Vyssotski em 1967, durante o Festival de Cinema de Moscou. Casaram-se em 1970, em um casamento que durou até a morte do poeta, em 1980, aos 42 anos, vítima de insuficiência cardíaca agravada pelo alcoolismo e pelo uso de drogas — uma realidade que o regime soviético tentou ocultar.
Por que isso importa? A história de Vlady e Vyssotski é um estudo de caso sobre o custo humano do estatismo. Vyssotski era um artista perseguido pela censura soviética. Suas canções, que criticavam a burocracia, a guerra no Afeganistão e a hipocrisia do Partido Comunista, eram proibidas nos meios oficiais, mas circulavam em fitas cassete gravadas clandestinamente. Estima-se que mais de 100 milhões de soviéticos ouviam suas músicas. Ele era a prova viva de que o Estado não consegue controlar a alma de um povo, por mais que tente.
Análise FORTIS: A morte de Marina Vlady nos lembra que o Estado mínimo e a liberdade individual são condições para o florescimento cultural. Na União Soviética, a arte era um instrumento de propaganda. Vyssotski, um gênio, foi tratado como inimigo. Vlady, uma cidadã francesa, casada com um soviético, viveu entre dois mundos, mas sempre defendeu a obra do marido. Ela escreveu livros, organizou shows póstumos e lutou para que a obra de Vyssotski fosse reconhecida. O regime soviético, que gastava fortunas em armamentos e repressão, tributava seus cidadãos com impostos altíssimos e entregava miséria cultural — exceto aquela que brotava à margem, como a poesia de Vyssotski.
Contraponto: Não se pode romantizar a figura de Vyssotski. Ele era um homem atormentado, com vícios que o levaram à morte precoce. A esquerda ocidental, especialmente na França e na Itália, muitas vezes idealizou a União Soviética como um paraíso operário, ignorando a repressão. Vlady, em suas memórias, nunca escondeu as dificuldades de viver sob vigilância constante, com telefones grampeados e perseguição da KGB. Ela mesma foi vigiada quando visitava o marido em Moscou. A verdade factual é que o regime soviético era um Estado policial que destruía seus artistas mais brilhantes.
Marina Vlady atuou em mais de 100 filmes, incluindo clássicos como "O Sol dos Enamorados" (1971) e "A Mosca" (1958), mas seu papel mais importante foi o de guardiã da memória de Vyssotski. Em 1987, sete anos após a morte do poeta, ela publicou "Vladimir, ou o Voo Interrompido", uma biografia que se tornou best-seller na França. Ela também foi responsável por levar a obra do marido para o Ocidente, organizando gravações e concertos.
O legado de Marina Vlady é um lembrete de que a arte verdadeira não precisa de subsídios estatais ou de aprovação burocrática. Ela floresce na liberdade. O Estado soviético tributava pesadamente seus cidadãos, mas não conseguia comprar a alma de Vyssotski. Vlady, com sua elegância e determinação, mostrou que o amor e a memória podem vencer a censura e o esquecimento.
Por Renan Filho · 2026-09-24