A Maraton Warszawski 2026, agendada para 27 de setembro, promete reunir mais de 12 mil corredores de 40 países em um percurso que cruza os principais pontos turísticos de Varsóvia. A largada será na Praça do Castelo, às 9h, e a chegada no Estádio Nacional, palco da Euro 2012. A rota inclui a Rua Marszałkowska, a Avenida Jerozolimskie e a Ponte Świętokrzyski, com fechamentos previstos das 6h às 16h. Segundo a prefeitura local, em nota oficial divulgada em 10 de setembro, as interdições atingirão 23 ruas, com desvios sinalizados. O problema é que, como de costume, o planejamento foi feito sem consulta real aos comerciantes e moradores da região central, que terão prejuízos estimados em 2,3 milhões de zlotys, conforme dados da Câmara de Comércio de Varsóvia.
A organização do evento, a cargo do Escritório de Esportes da Prefeitura de Varsóvia, afirma que o fechamento é necessário para garantir a segurança dos participantes. Entretanto, um relatório interno vazado para a imprensa local, publicado pelo jornal Rzeczpospolita em 15 de setembro, revela que apenas 40% dos recursos destinados à sinalização temporária foram efetivamente gastos nos últimos três anos. O restante sumiu em licitações superfaturadas. O contribuinte polonês, que já paga uma das maiores cargas tributárias da União Europeia — 45% do PIB, segundo a OCDE —, financia um evento que, em vez de gerar retorno econômico real, apenas transfere custos para o setor privado.
Por que isso importa? Porque a Maratona de Varsóvia é um microcosmo do modelo estatista europeu. Enquanto corredores pagam taxas de inscrição de 120 euros cada, o Estado polonês injeta 1,5 milhão de euros em subsídios diretos, dinheiro que poderia ser usado para asfaltar as crateras que os próprios corredores terão que evitar no percurso. Dados do Ministério da Infraestrutura polonês indicam que 18% das estradas de Varsóvia estão em condições ruins ou péssimas, um número que não melhora desde 2020. A solução? Menos Estado, mais mercado. Empresas privadas de logística, como a DHL Polska, já oferecem serviços de transporte alternativo durante eventos, mas a prefeitura insiste em burocratizar até a autorização para desvios.
A análise FORTIS é direta: a maratona é um evento legítimo, que promove saúde e turismo. Mas o custo de oportunidade é ignorado. Enquanto a prefeitura gasta milhões em propaganda e taxas administrativas, o pequeno comerciante da Rua Nowy Świat — que depende do fluxo de turistas aos sábados — simplesmente fecha as portas. Em declaração à imprensa, o presidente da Associação de Comerciantes do Centro de Varsóvia, Andrzej Kowalski, afirmou que "o evento é importante, mas o poder público nunca nos compensa pelas perdas. Pagamos impostos para sermos multados se não cumprirmos as regras, mas o Estado não cumpre as dele". Não há narrativa aqui: há fato.
O contraponto necessário: a prefeitura argumenta que o retorno de mídia internacional, com transmissão ao vivo para 15 países, gera receita turística de longo prazo. Um estudo da Universidade de Varsóvia, de 2024, estima que cada maratona atrai 8.000 visitantes estrangeiros que gastam, em média, 300 euros por dia. O problema é que 70% desse gasto vai para hotéis e redes internacionais, não para o comércio local. O dinheiro entra, mas não circula na economia de bairro. É o mesmo erro de sempre: priorizar vitrines globais em detrimento do contribuinte que financia a festa.
Dados oficiais do Escritório Central de Estatística da Polônia mostram que, desde 2020, o número de pequenos negócios fechados na região central de Varsóvia aumentou 12%, em grande parte devido a eventos públicos que interditam ruas sem aviso prévio adequado. A maratona de 2026, com 23 ruas fechadas, será mais um capítulo dessa história. A solução liberal-conservadora é simples: privatizar a organização do evento, reduzir subsídios e obrigar a prefeitura a pagar compensação direta aos comerciantes afetados, com base em declarações fiscais. Menos Estado, mais responsabilidade fiscal.
Para os participantes, as informações práticas: a retirada dos kits ocorre nos dias 25 e 26 de setembro, no Palácio da Cultura e Ciência, das 10h às 20h. O transporte público municipal (ZTM) terá linhas especiais, mas com tarifa cheia — 4,40 zlotys por viagem, sem desconto para corredores. A organização recomenda uso de metrô, que não sofre interdições, mas a estação Centrum estará fechada das 7h às 10h por "razões de segurança", conforme nota oficial. Ou seja, o cidadão comum paga caro para ser empurrado para longe.
Por Renan Filho · 2026-09-23