A Polônia pode se tornar o epicentro europeu da mineração de terras raras. O projeto, liderado pela empresa estatal Polska Grupa Górnicza (PGG) em parceria com a australiana Minerals Corporation, prevê a exploração de um depósito localizado na cordilheira dos Cárpatos, próximo à cidade de Kłodzko, na Baixa Silésia. Segundo o Instituto Geológico Polonês, as reservas identificadas somam 24 milhões de toneladas de óxidos de terras raras, o suficiente para abastecer a demanda da União Europeia por mais de três décadas.
A extração comercial está prevista para começar no primeiro trimestre de 2028, conforme informou o Ministério do Clima e Meio Ambiente da Polônia em nota oficial divulgada em setembro. A primeira fase envolverá a construção de uma planta de beneficiamento com capacidade para processar 200 mil toneladas de minério por ano. O cronograma, no entanto, depende da conclusão das avaliações de impacto ambiental e da emissão de licenças pela Agência Regional de Mineração de Wrocław.
Por que isso importa? A Europa importa cerca de 98% de suas terras raras da China, segundo dados da Comissão Europeia. Esses minerais são essenciais para a fabricação de ímãs permanentes usados em turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de armas guiadas. A guerra na Ucrânia e as tensões no Estreito de Taiwan expuseram a vulnerabilidade do continente a cortes de fornecimento pequinês. Em declaração à emissora polonesa TVP, o vice-primeiro-ministro Jacek Sasin afirmou que o projeto "não é apenas econômico, mas uma questão de soberania nacional”.
Análise FORTIS: O projeto polonês é um exemplo raro de como o planejamento estatal pode, em tese, reduzir a dependência externa. Contudo, é preciso cautela. O governo polonês injetou 1,2 bilhão de euros em subsídios diretos e garantias de crédito, segundo o jornal Rzeczpospolita. Em um ambiente de livre mercado, esse dinheiro poderia ter sido alocado de forma mais eficiente por investidores privados. Além disso, a mina enfrenta forte oposição de grupos ambientais locais, que apontam riscos de contaminação hídrica na bacia do rio Oder. O custo total estimado já subiu 40% em relação ao orçamento inicial, para 4,5 bilhões de euros, o que levanta dúvidas sobre a sustentabilidade financeira do empreendimento sem aportes contínuos do contribuinte polonês.
Contraponto: defensores do projeto argumentam que os benefícios estratégicos superam os custos. A União Europeia, por meio do Critical Raw Materials Act, oferece incentivos para minas que reduzam a dependência chinesa. A Polônia também negocia com a Alemanha um acordo para fornecer terras raras refinadas para a indústria automotiva alemã, em troca de investimentos em infraestrutura. O CEO da Minerals Corporation, Peter Grimshaw, em entrevista à Reuters, destacou que a planta usará tecnologia de extração por lixiviação in situ, com menor impacto ambiental do que a mineração convencional. Dados do Instituto Polonês de Ecologia indicam que a pegada de carbono do projeto será 60% menor do que a de minas similares na China.
Por Renan Filho · 2026-09-24