A casa de leilões Desa Unicum, uma das mais tradicionais da Polônia, anunciou nesta quarta-feira (24) que colocará à venda no dia 15 de outubro a tela "Kompozycja op-artowska" (Composição op-art), do artista polonês Wojciech Fangor (1922-2015). A estimativa inicial é de que o lance vencedor fique entre 2,5 e 3 milhões de zlotys, valor que, se confirmado, colocará a obra entre as mais caras já vendidas no país.
Fangor é considerado um dos pioneiros da Op Art (arte óptica) e o único polonês a ter uma exposição individual no Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA), em 1970. Sua técnica de criar ilusões de movimento e profundidade por meio de padrões geométricos e cores vibrantes conquistou colecionadores no mundo todo. A tela que vai a leilão, de 1968, é uma das mais representativas de sua fase madura.
O leilão ocorre em um momento de intenso debate na Polônia sobre o financiamento estatal da cultura. O governo do primeiro-ministro Donald Tusk, em meio a pressões fiscais para reduzir o déficit público, anunciou em fevereiro cortes de aproximadamente 12% no orçamento do Ministério da Cultura e Patrimônio Nacional para 2025, conforme noticiado pelo jornal Rzeczpospolita. A medida reacendeu a discussão sobre o papel do Estado versus a iniciativa privada na preservação e promoção da arte.
Para os defensores do livre mercado, o caso Fangor é exemplar. A valorização da obra não dependeu de subsídios ou de campanhas estatais, mas sim do reconhecimento genuíno de colecionadores e investidores. Dados do portal ArtPrice mostram que, nos últimos cinco anos, o índice de preços de obras de artistas poloneses modernos subiu 47%, impulsionado principalmente por leilões privados e feiras internacionais, como a TEFAF Maastricht e a Frieze London.
A análise FORTIS aponta que a cultura, quando tratada como um ativo de mercado, tende a ser mais bem alocada do que quando depende de verbas públicas discricionárias. O Estado polonês, assim como o brasileiro e a maioria dos latino-americanos, historicamente gasta mal em cultura: financia projetos de baixo retorno social ou que servem a agendas políticas, enquanto obras de real valor artístico encontram no mercado seu preço justo. O leilão de Fangor é a prova de que a demanda real por arte de qualidade existe e é capaz de gerar riqueza sem que o contribuinte seja forçado a bancar.
Contraponto: críticos do modelo de mercado argumentam que sem o apoio estatal a arte erudita e experimental seria sufocada pelo gosto popular e pelo capital especulativo. No entanto, dados do relatório "Art Market 2025" da European Fine Art Foundation (TEFAF) indicam que o segmento de arte contemporânea polonesa cresceu 23% em vendas no último ano, com destaque para galerias independentes e leilões. A própria Desa Unicum, empresa privada, tem se destacado na curadoria e na internacionalização de artistas poloneses, papel que antes era atribuído exclusivamente a museus públicos.
Além disso, a soberania cultural não é ameaçada pelo mercado, mas fortalecida. Quando um comprador estrangeiro adquire uma obra de Fangor, a arte polonesa ganha projeção global, e o país se beneficia da entrada de divisas e do incremento de seu soft power. O Estado, nesse cenário, deve atuar apenas como garantidor dos direitos de propriedade e da livre negociação, não como gestor ou financiador.
O leilão de outubro será um termômetro para o mercado de arte polonês. Se o valor estimado for alcançado ou superado, confirmará a tendência de que a arte de qualidade encontra seu espaço mesmo em tempos de aperto fiscal. A FORTIS NEWS acompanhará o resultado e trará a análise dos impactos para o debate sobre o financiamento da cultura.
Por Renan Filho · 2026-09-24