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Economia

A ‘Lalka’ de Bolesław Prus e o Retrato Atual da Polônia: Entre o Empreendedorismo e o Estado Ineficiente

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-22

A obra-prima do realismo polonês, ‘Lalka’ (A Boneca), retrata as contradições do capitalismo nascente em Varsóvia no século XIX. Hoje, a Polônia modernizada reeditou a tensão entre o mérito individual e o peso do Estado — e o resultado é uma economia que cresce, mas ainda tropeça na burocracia e nos gastos públicos.

Quando Bolesław Prus publicou ‘Lalka’ em 1890, ele não imaginava que sua história do comerciante Stanisław Wokulski — um homem que ascendeu pelo esforço próprio e pelo risco empresarial — se tornaria um espelho para os dilemas econômicos da Polônia contemporânea. Wokulski, um self-made man, enfrentou a aristocracia improdutiva, a desconfiança social diante do capital estrangeiro e um Estado que pouco fazia para proteger ou incentivar quem produz riqueza. Mais de 130 anos depois, a Polônia de 2026 vive um paradoxo parecido.

O país é uma das histórias de sucesso econômico da União Europeia: o PIB per capita saltou de cerca de 60% da média europeia em 2004 para mais de 80% segundo o Eurostat de 2025, impulsionado por reformas liberais nas décadas de 1990 e 2000, pela adesão ao mercado comum e pela atração de investimentos estrangeiros. O empreendedorismo polonês floresceu especialmente em setores como tecnologia, logística e manufatura. Empresas como a CD Projekt (dos videogames The Witcher) e a Allegro (o maior marketplace local) mostraram que o capital polonês pode competir globalmente.

No entanto, como na Varsóvia de Wokulski, o sucesso individual ainda esbarra em obstáços estruturais. Um relatório do Bank Światowy (Banco Mundial) de 2025 indica que, apesar de avanços, a Polônia ocupa a 69ª posição no ranking de facilidade de fazer negócios (Doing Business) — atrás da Estônia (18ª) e da Lituânia (30ª). A burocracia para abrir uma empresa leva em média 9 dias e exige 5 procedimentos, segundo dados oficiais do Ministério do Desenvolvimento polonês. Para efeito de comparação, na Nova Zelândia o processo leva menos de 24 horas e é totalmente digital. O tempo perdido com papelada tem custo direto para PMEs.

A carga tributária também pesa: a alíquota efetiva para empresas de médio porte em Varsóvia, incluindo contribuições sociais e impostos indiretos, chega a 40,8% dos lucros, conforme estudo da PwC Polska (2025). Isso reduz a capacidade de reinvestimento — o mesmo dilema de Wokulski, que precisava de capital para expandir seus negócios mas enfrentava juros altos e um sistema bancário incipiente. Hoje, os juros reais na Polônia (acima de 2,5% ao ano) são dos mais altos da Zona do Euro, o que encarece o crédito para quem quer crescer.

## Por que importa O Brasil, ao olhar para a Polônia, encontra um espelho em positivo e negativo. O que funcionou foi a abertura econômica criteriosa e o respeito à propriedade privada — valores liberais que o atual governo polonês, de maioria conservadora (Lei e Justiça, PiS) até 2023 e depois a coalizão liberal-Terceira Via, manteve em linhas gerais. O que não funcionou foi o aumento do Estado: entre 2015 e 2024, os gastos públicos na Polônia subiram de 41% para 46% do PIB, segundo o FMI (2025). Programas sociais eleitoreiros, como o ‘500+’ (subsídio por filho), foram eficazes para reduzir a pobreza infantil, mas criaram dependência e pressionaram a inflação (que atingiu 8,2% em meados de 2025 antes de recuar).

## Análise FORTIS A narrativa de que a Polônia é um ‘paraíso liberal’ precisa ser calibrada. O país fez o dever de casa nos anos 1990 (privatizações, estabilização monetária, fim de subsídios), mas nos últimos dez anos o Estado inchou. O governo atual, liderado pelo primeiro-ministro Donald Tusk (desde 2023), prometeu cortar gastos e desburocratizar, mas até setembro de 2026 o progresso é modesto. Um exemplo: a digitalização de serviços públicos, que poderia reduzir filas e custos, avançou, mas não o suficiente. O sistema tributário ainda exige declarações trimestrais para pequenas empresas, algo que a Estônia resolveu com declaração única anual online desde 2014.

Do ponto de vista liberal-conservador, a Polônia acerta ao defender a soberania nacional (resistindo à imigração descontrolada e a ditames burocráticos de Bruxelas) e ao preservar valores familiares que sustentam o capital humano. Mas erra ao não confiar plenamente no mercado. Wokulski diria que o maior inimigo do empreendedor não é a concorrência — é o Estado que tributa demais, regula demais e gasta mal.

## Contraponto Defensores do modelo de Estado mais ativo na Polônia, como economistas ligados ao instituto IBS (Warsaw), argumentam que sem o programa 500+ a desigualdade teria aumentado e que os investimentos públicos (em ferrovias e educação) foram essenciais para a coesão social. Dados oficiais do GUS (Escritório Central de Estatística) mostram que a taxa de pobreza extrema caiu de 6,5% em 2015 para 4,1% em 2024. É um dado factual. O problema, do ponto de vista liberal, é o custo de oportunidade: cada złoty gasto pelo Estado é um złoty que poderia ter gerado mais riqueza nas mãos do setor privado. A dívida pública polonesa subiu de 47% para 53% do PIB no mesmo período (FMI) — ainda administrável, mas em trajetória de alta.

**P: A Polônia de hoje é realmente um exemplo de capitalismo de sucesso ou está repetindo erros do século XIX descritos em ‘Lalka’?** R: Em parte, os dois. O país demonstra que reformas liberais consistentes (entrada na UE, abertura comercial, respeito a contratos) criam um ambiente onde o mérito pode recompensar — como Wokulski mostrou. Mas o Estado polonês atual, embora mais eficiente que o do século XIX, ainda consome recursos demais e cria amarras burocráticas que a obra de Prus já criticava indiretamente. O sucesso polonês veio apesar do Estado, não graças a ele.

**P: O que o Brasil poderia aprender com o caso polonês?** R: Primeiro, que não existe atalho para o desenvolvimento: é preciso privatizar, desburocratizar e controlar gastos. A Polônia fez isso nos anos 1990 e colheu frutos. Segundo, que o aumento do Estado, mesmo com boas intenções sociais, termina por corroer a produtividade. O Brasil, com carga tributária de 34% do PIB e gastos públicos ineficientes, deveria olhar para a Polônia como um exemplo do caminho liberal-conservador possível — sem os exageros do populismo e sem a utopia estatizante.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.