O tabuleiro político polonês virou. Uma nova pesquisa do instituto Ibris, encomendada pela RMF FM e pelo jornal Rzeczpospolita, revela que a Konfederacja, coalizão de ultradireita liberal nos costumes e radical no livre mercado, está colada no partido governista Lei e Justiça (PiS). O levantamento, realizado entre os dias 18 e 22 de setembro de 2026, mostra o PiS com 25,6% das intenções de voto, contra 24,1% da Konfederacja. A diferença de apenas 1,5 ponto percentual está dentro da margem de erro de 2 pontos, configurando um empate técnico.
O que antes era um cenário improvável agora se consolida como tendência. Nas últimas três rodadas do Ibris, a Konfederacja cresceu consistentemente, saindo de 18% em julho para os atuais 24,1%. O PiS, por sua vez, oscilou negativamente, perdendo cerca de 3 pontos no mesmo período. A Coalizão Cívica (KO), do primeiro-ministro Donald Tusk, aparece em terceiro, com 20,3%, estagnada e sem conseguir capitalizar a queda conservadora.
O deputado Michał Wawer, um dos líderes da Konfederacja e pré-candidato a primeiro-ministro, comentou os números em entrevista à “Popołudniowa rozmowa” da RMF FM nesta quinta-feira. Em declaração à rádio, Wawer afirmou que “os poloneses estão fartos de um Estado que gasta mal, tributa demais e entrega pouco, seja com o PiS ou com a plataforma cívica”. Segundo o parlamentar, o crescimento da Konfederacja reflete a demanda por “menos impostos, menos regulação e mais liberdade econômica”.
O avanço da Konfederacja não é um acaso. O partido, que reúne desde libertários radicais a nacionalistas conservadores, surfou no desgaste do PiS com a inflação ainda elevada (6,1% ao ano) e com o aumento da carga tributária promovido pelo governo de Mateusz Morawiecki para financiar programas sociais. Para o eleitor médio polonês, especialmente o jovem empreendedor e o trabalhador rural, o discurso de corte de impostos e burocracia soa mais atraente do que o assistencialismo estatal do PiS.
Por que isso importa? A Polônia, maior economia do Leste Europeu e membro chave da União Europeia, vive um realinhamento ideológico. O PiS, que chegou ao poder em 2015 com uma plataforma de conservadorismo social e nacionalismo econômico, abandonou gradualmente as bandeiras de livre mercado. Aumentou o salário mínimo em mais de 80% desde 2015, expandiu o Estado de bem-estar social com o programa “500+” e elevou a dívida pública. O resultado é um partido que hoje gasta como social-democrata, mas tributa como socialista, afastando sua base mais liberal.
A Konfederacja, por outro lado, propõe um imposto de renda único de 12%, a eliminação de subsídios estatais e a privatização de empresas públicas. A agenda é coerente com os princípios liberais-conservadores: Estado mínimo, soberania nacional e responsabilidade fiscal. Não é populismo fiscal; é a aplicação de uma tese comprovada de que menos Estado gera mais crescimento.
Análise FORTIS: O fenômeno polonês é um aviso para todo o Ocidente. Quando partidos conservadores abandonam a disciplina fiscal e o compromisso com o livre mercado, o eleitorado migra para alternativas mais radicais. O PiS, ao tentar competir com a esquerda no campo do gasto público, perdeu sua identidade. A Konfederacja, mesmo com discurso polêmico em costumes e imigração, apresenta um programa econômico factualmente superior: menos impostos, menos dívida, mais liberdade. Os dados oficiais do Eurostat mostram que a Polônia cresceu mais quando o Estado encolheu (1990-2005) do que na era PiS. A verdade factual está com quem defende o contribuinte, não o cofre público.
Contraponto: Críticos apontam que a Konfederacja é dividida entre facções radicais, como o partido Nacional (Ruch Narodowy), de viés antissistema e retórica xenófoba, e a ala libertária (KORWiN). Essa fragmentação pode inviabilizar a governabilidade. Além disso, a proposta de imposto único de 12% exigiria cortes drásticos em saúde e educação, que são serviços públicos valorizados pelos poloneses. A pergunta que fica é: a Konfederacja conseguirá se unir em torno de um programa de governo viável ou será apenas um protesto passageiro?
Por Renan Filho · 2026-09-24