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Internacional

Bogactwo w chińskich rękach: EUA reféns da China e Polônia na mira do capital asiático

Renan Filho Por Renan Filho · 2026-09-24

Enquanto Pequim domina o refino de terras raras e a cadeia de baterias, Washington admite que dependerá de fornecedores estrangeiros por mais uma década. A Polônia, peça-chave na nova rota do lítio, vê o dinheiro chinês chegar antes do europeu.

O termo polonês "bogactwo w chińskich rękach" — riqueza em mãos chinesas — resume o novo mapa da dependência estratégica global. Dados do Serviço Geológico dos EUA (USGS) de 2025 mostram que a China controla 70% da produção global de terras raras e responde por 90% do refino de elementos como neodímio e disprósio, insumos essenciais para turbinas eólicas, veículos elétricos e sistemas de defesa. O Pentágono, em relatório classificado vazado ao Wall Street Journal em agosto, reconheceu que a substituição da capacidade chinesa de processamento mineral levará "no mínimo 12 anos, mesmo com investimento federal acelerado".

A Polônia, nesse cenário, tornou-se um dos epicentros da disputa. O país, que já abriga a maior mina de cobre da Europa (KGHM Polska Miedź), agora atrai investimentos chineses em refinarias de lítio e cobalto. Em setembro de 2025, a Ganfeng Lithium, maior processadora de lítio do mundo, anunciou a construção de uma unidade de hidróxido de lítio em Legnica, na Baixa Silésia, com capacidade inicial de 40 mil toneladas anuais. O governo polonês, liderado por Donald Tusk, aprovou o projeto em regime de urgência, sob o argumento de que "a Europa não pode esperar por burocracia verde enquanto a China já está duas décadas à frente".

O que está em jogo não é apenas a soberania energética dos EUA, mas a arquitetura de alianças do Ocidente. A Polônia, membro da UE e da OTAN, tornou-se o hub logístico da nova Rota da Seda terrestre, com trens carregados de componentes eletrônicos saindo de Chengdu e chegando a Łódź em 12 dias. Em 2024, o comércio bilateral Polônia-China atingiu 42 bilhões de dólares, um salto de 18% em relação ao ano anterior, segundo o Escritório Central de Estatísticas polonês. Enquanto isso, os EUA tentam reagir com o Inflation Reduction Act (IRA), que oferece subsídios para a mineração doméstica, mas esbarram em licenciamentos ambientais que levam de 7 a 10 anos.

A dependência americana não é acidental. A China, sob o regime de Xi Jinping, adotou uma estratégia de longo prazo: comprou minas na África, Austrália e América do Sul, construiu refinarias em território próprio e impôs cotas de exportação que funcionam como arma geopolítica. Em 2023, Pequim cortou pela metade as exportações de germânio e gálio, metais usados em semicondutores e sistemas de visão noturna. O efeito foi imediato: o preço do germânio quadruplicou, e o Pentágono teve que recorrer a estoques estratégicos. "Estamos diante de um monopólio pior que o do petróleo nos anos 1970", afirmou o senador republicano John Barrasso, em audiência no Comitê de Energia do Senado em junho de 2025.

A Polônia, no entanto, não é vítima passiva. O país usa sua posição para barganhar com ambos os lados. Varsóvia assinou em 2024 um acordo de cooperação mineral com o Canadá, mas ao mesmo tempo negocia com a China a instalação de uma fábrica de baterias para veículos elétricos em Gliwice. Para o governo polonês, a lógica é clara: o capital chinês chega rápido, sem exigências ambientais rigorosas e com financiamento estatal. O capital europeu, por outro lado, exige relatórios de sustentabilidade, licenças que demoram anos e retornos financeiros de curto prazo que a infraestrutura mineral não oferece.

Do ponto de vista liberal-conservador, o problema não é a China investir, mas o Ocidente ter deixado de investir. Durante décadas, governos americanos e europeus terceirizaram a produção industrial para a Ásia, confiando que o livre mercado sempre ofereceria alternativas. O que não previram foi que o livre mercado chinês é controlado pelo Partido Comunista, que subsidia empresas estatais, fecha o mercado interno para concorrentes e usa o superávit comercial para financiar a expansão global. Enquanto isso, os EUA gastaram 8 trilhões de dólares em guerras no Oriente Médio desde 2001, mas não investiram 1% disso em refinarias de lítio em Nevada ou Texas.

A análise do FORTIS é direta: a soberania nacional não se defende com discurso, mas com capacidade industrial. De nada adianta a Polônia ter o maior exército terrestre da Europa se suas baterias militares dependem de cátodos chineses. De nada adianta os EUA terem 11 porta-aviões se os ímãs de neodímio que movem seus sistemas de lançamento são feitos em Shenzhen. A solução passa por desregulamentação ambiental inteligente, incentivos fiscais para mineração doméstica e, acima de tudo, a coragem de dizer que a transição energética verde não pode ser feita com servidão mineral a Pequim.

Contraponto necessário: defensores do livre comércio irrestrito argumentam que a especialização chinesa reduziu custos e acelerou a adoção de energias renováveis no Ocidente. Sem as baterias chinesas, o preço dos veículos elétricos seria 40% maior, segundo a BloombergNEF. O problema é que essa eficiência de curto prazo custou a perda de capacidade estratégica de longo prazo. O mercado livre funciona quando há competição real, não quando um Estado totalitário controla 90% de um insumo crítico.

Renan Filho
Sobre o autor
Renan Filho
Editor-Chefe do FORTIS News

Editor-chefe do FORTIS News. Especialista em tecnologia, inteligencia artificial e mercados financeiros. Criador de fintechs e plataformas digitais que combinam tecnologia, dados e inteligencia artificial para entregar valor real.