Na última segunda-feira, um automóvel atropelou um cão de porte médio em uma travessia da Rua Florianska, uma das vias mais movimentadas do centro histórico de Kraków. Segundo o relatório da polícia local, o motorista fugiu sem prestar socorro. O animal, que não portava coleira de identificação, foi resgatado por transeuntes e encaminhado a uma clínica veterinária particular, onde os exames de raio-X confirmaram fraturas expostas nas patas traseiras e uma fissura na pelve.
A equipe veterinária informou à imprensa polonesa que o cão precisará de pelo menos duas cirurgias e de um período de reabilitação de três a quatro meses. O custo estimado do tratamento ultrapassa 10 mil zlotys (cerca de R$ 12 mil). Até o momento, o proprietário do animal não foi identificado, e a prefeitura de Kraków afirma que não há verba pública destinada a cobrir despesas veterinárias de animais de rua, deixando a conta sob responsabilidade de uma ONG local de proteção animal.
O incidente ocorre em um contexto de aumento de atropelamentos de animais em zonas urbanas polonesas. Dados do Departamento de Estatísticas da Polônia indicam que, em 2025, foram registrados mais de 1.200 casos de animais domésticos atropelados nas cidades do país, dos quais apenas 18% resultaram na identificação do motorista. Em Kraków, especificamente, a taxa de esclarecimento desses casos é de 12%, revelando uma enorme lacuna na fiscalização e na aplicação das leis de trânsito.
Por que isso importa? Porque revela um duplo fracasso do Estado polonês. Primeiro, na segurança viária: as vias urbanas carecem de redutores de velocidade, sinalização adequada e campanhas educativas para motoristas. Segundo, na proteção animal: as leis existentes, como a multa de até 500 zlotys por abandono ou maus-tratos, são raramente aplicadas, e o sistema de identificação eletrônica de animais ainda é voluntário, o que dificulta a localização de tutores.
A análise FORTIS aponta que o problema não se resolve apenas com mais regulação estatal. Em países onde o mercado de seguros para animais de estimação é maduro — como nos Estados Unidos e na Alemanha —, os tutores têm incentivos financeiros para manter seus animais identificados e vacinados, e as seguradoras pressionam por padrões de segurança. Na Polônia, a penetração desse tipo de seguro é inferior a 10%, e a maior parte das despesas veterinárias recai sobre o contribuinte ou sobre ONGs. É um exemplo clássico de como a ausência de mecanismos de mercado leva a ineficiência e desproteção.
Um contraponto necessário: os defensores de maior intervenção estatal argumentarão que o poder público deveria ampliar a fiscalização eletrônica (câmeras de trânsito) e aumentar as multas para motoristas que atropelam animais. De fato, a instalação de mais radares poderia reduzir acidentes, mas a experiência de países como o Reino Unido mostra que o efeito é marginal se não houver campanhas de conscientização e responsabilização individual. A verdade factual é que a maioria dos motoristas que fogem não é capturada porque as câmeras nem sempre funcionam e os registros de veículos são insuficientes. A solução passa por combinar tecnologia com responsabilização pessoal, e não apenas por criar novas taxas e multas.
O caso do cachorro de Kraków também levanta a questão do papel das ONGs. Elas fazem um trabalho heroico, mas operam com recursos escassos e sem garantia de continuidade. A FORTIS defende que o Estado deve se limitar a criar um ambiente jurídico estável e a remover barreiras burocráticas para que clínicas veterinárias privadas e planos de saúde animal possam florescer. Na Polônia, a carga tributária sobre serviços veterinários é alta (23% de IVA), o que encarece o atendimento e desestimula a formalização.
Por Renan Filho · 2026-09-25