Em meio à campanha para as eleições presidenciais nigerianas de 2027, o candidato Yayi divulgou nesta semana um pacote de promessas que mistura liberalismo fiscal com apelo popular. Ele garante a criação de 500 mil empregos formais e a plena autonomia administrativa e financeira dos governos locais (LGAs), caso seja eleito.
A proposta, detalhada em publicação nas redes sociais do candidato, prevê a extinção de parte das taxas federais sobre pequenas empresas, além da transferência direta de 15% da arrecadação do petróleo para as prefeituras. Yayi afirma que a medida desburocratiza o ambiente de negócios e devolve poder de decisão às comunidades.
Para entender o tamanho do desafio, é preciso olhar para o histórico. A Nigéria, maior economia da África, convive com uma taxa de desemprego que oscila entre 33% e 40%, segundo dados do National Bureau of Statistics (NBS). A geração de 500 mil postos de trabalho em um mandato de quatro anos representaria uma queda de apenas 2 a 3 pontos percentuais na taxa atual.
Por que isso importa para o FORTIS? Porque, em um cenário global de juros altos e fuga de capitais de mercados emergentes, qualquer sinal de reforma pró-mercado anima investidores. No entanto, a história recente mostra que promessas eleitorais na Nigéria frequentemente esbarram no custo político de enfrentar a burocracia e a corrupção local.
A autonomia das LGAs, por exemplo, já está prevista na Constituição de 1999, mas nunca foi implementada de fato. Os governos estaduais, intermediários entre o poder federal e as prefeituras, historicamente retêm verbas para manter sua própria máquina. Yayi promete cortar esse intermediário e transferir recursos diretamente — o que, se cumprido, enfraqueceria os governadores, base de seu próprio partido.
Do ponto de vista fiscal, a dívida pública nigeriana beira os 90 trilhões de nairas (cerca de 110 bilhões de dólares), com o serviço da dívida consumindo mais de 90% da arrecadação federal em 2025. Sem um choque de eficiência no gasto público, aumentar transferências para as prefeituras sem cortar despesas federais pode gerar mais inflação e desvalorização cambial.
O candidato também promete reduzir impostos sobre importação de insumos agrícolas e industriais, o que aliviaria o custo de produção local. Dados oficiais mostram que a Nigéria tributa, em média, 34% do lucro das empresas — contra 25% nos países da África do Sul e 18% no Botswana. Yayi propõe um teto de 20%.
A análise FORTIS é clara: a agenda tem méritos de livre mercado claros. Reduzir a carga tributária e descentralizar recursos são medidas que historicamente geram crescimento, como se viu na reforma do Quênia em 2015 ou na simplificação fiscal de Ruanda. No entanto, falta um plano de transição. Sem uma reforma do Estado que reduza a máquina federal em pelo menos 20% — o que Yayi não mencionou — o risco de descontrole fiscal é elevado.
Contraponto factual: a esquerda nigeriana, liderada pelo Partido Trabalhista (LP), critica o plano como “privatização do Estado”, alegando que a redução de impostos beneficia apenas grandes conglomerados. Dados do Fundo Monetário Internacional, contudo, mostram que os 1% mais ricos pagam menos impostos proporcionais que a classe média nigeriana, devido a brechas legais. A proposta de Yayi, ao simplificar o sistema, pode fechar essas brechas e ampliar a base de arrecadação.
Por Renan Filho · 2026-09-25