No meio de uma agenda de reformas econômicas profundas, a Nigéria de Bola Tinubu agora lida com uma polêmica simbólica. O ministro das Obras, Dave Umahi, ordenou a exibição de imagens do presidente na Primeira Ponte do Níger, uma das mais importantes ligações viárias do país, que conecta as margens dos rios a Asaba e Onitsha. A ordem foi noticiada pela imprensa nigeriana nesta semana, após uma vistoria do ministro à infraestrutura.
De acordo com os relatos, Umahi teria determinado que retratos do presidente fossem instalados em pontos estratégicos da ponte, justificando a medida como uma homenagem aos esforços do atual governo na manutenção de rodovias e pontes. O gesto, no entanto, provocou reações divergentes: enquanto aliados veem um ato legítimo de reconhecimento, críticos apontam para a priorização de gastos com propaganda em um país que ainda enfrenta déficits enormes em saneamento, energia e transporte.
Essa não é a primeira vez que o governo nigeriano recorre a símbolos para associar obras ao presidente. Desde o início do mandato, Tinubu implementou reformas estruturais, como o fim do subsídio aos combustíveis e a unificação das taxas de câmbio, medidas que causaram alta da inflação, mas que são vistas por economistas como necessárias para destravar o crescimento. Por isso, a decisão de adornar uma ponte com o retrato do presidente pode ser interpretada como uma tentativa de capitalizar politicamente sobre o legado de obras, mas também como uma distração em relação aos verdadeiros problemas.
Por que isso importa? Porque no Brasil e na América Latina, o gesto lembra as velhas práticas de governos populistas que gastam bilhões em estátuas e placas enquanto a infraestrutura se degrada. Uma ponte não se mantém com fotografias; mantém-se com pedágios bem geridos, manutenção periódica e investimento privado. A Primeira Ponte do Níger, inaugurada em 1965, é um ativo estratégico que deveria servir à logística do país, não a um culto à personalidade.
A análise FORTIS: em uma economia livre, o melhor marketing é o desempenho. O presidente Tinubu terá crédito real se a sua agenda liberal de abertura comercial, privatização de estatais e disciplina fiscal gerar empregos e redução da pobreza. Se as reformas derem certo, os próprios cidadãos serão a memória viva do feito; se derem errado, retratos não serão capazes de esconder o fracasso. O gesto de Umahi, portanto, além de desnecessário, pode sair pela culatra: associar a imagem do presidente a uma obra que não é dele, mas do contribuinte nigeriano.
Contraponto: defensores do governo argumentam que a exibição de retratos presidenciais é comum em democracias e ajuda a reforçar a accountability pública, mostrando quem está à frente de iniciativas concretas. Além disso, se a confecção e instalação forem feitas com custo baixo ou por meio de patrocínio privado, o impacto orçamentário seria mínimo. Em um país com histórico de abandono das regiões do Sul, o gesto pode também ter uma dimensão simbólica de integração nacional.
Não se trata de demonizar a figura de um líder que assumiu o poder em condições adversas. Mas a lição para governos é clara: a propaganda não constrói pontes, e nem sempre o cimento do Estado é a melhor solução. Se a Nigéria quer modernizar sua infraestrutura, deveria abrir espaço para parcerias público-privadas, contratos de concessão e financiamento internacional, reduzindo o peso do governo e aumentando a eficiência.
O episódio também ecoa a advertência de liberais como Milton Friedman: quando o Estado gasta recursos escassos para cultuar a autoridade, o resultado é o empobrecimento coletivo. O governo Tinubu tem a chance de provar que é diferente, mas pequenos gestos como esse podem minar a credibilidade reformista em um país onde a população anseia por soluções concretas, não por retratos na ponte.
Em suma, a exibição de fotos de Tinubu na Primeira Ponte do Níger pode ser um detalhe político, mas revela um traço perigoso: a mistura de obra pública com símbolo pessoal. A verdade é que a Nigéria precisa de melhorias reais em sua logística, e isso virá com menos estatismo e mais mercado. Que o governo gaste os recursos em pavimentação, sinalização e segurança, e deixe que a história decida quem deve ser homenageado.
Por Renan Filho · 2026-09-24