A Nigéria vive um momento decisivo. Após décadas de populismo fiscal, controle de câmbio e subsídios que drenavam o Tesouro, o governo de Bola Tinubu decidiu enfrentar a realidade — e os primeiros resultados, embora amargos, começam a desenhar um cenário de recuperação possível. A avaliação é do secretário organizador do Afenifere, grupo sociocultural que representa o povo iorubá, que em declaração à imprensa defendeu as reformas econômicas do presidente como o único caminho para recolocar a Nigéria nos trilhos do crescimento.
O diagnóstico não é novo, mas a coragem política de implementá-lo é rara no continente. Tinubu, eleito em 2023, herdou um país com inflação de dois dígitos, reservas internacionais minguantes e uma dívida pública que consumia mais de 90% da receita do governo federal. O subsídio à gasolina, que custava cerca de US$ 10 bilhões por ano, beneficiava principalmente as classes médias urbanas — não os pobres, como a narrativa populista sempre tentou vender. O câmbio múltiplo, por sua vez, criava um mercado paralelo gigantesco e afastava investidores estrangeiros.
A resposta do governo foi cirúrgica: fim do subsídio, unificação das taxas de câmbio, liberação gradual dos preços dos derivados de petróleo e uma tentativa de ampliar a base tributária sem aumentar alíquotas. Medidas que, no curto prazo, elevaram a inflação e o custo de vida, mas que já mostram sinais de reequilíbrio macroeconômico. O naira, que chegou a desabar no mercado negro, encontrou um piso mais realista. As reservas internacionais, que caíam ano após ano, estabilizaram-se. E o Banco Central, antes usado como caixa dois do governo, voltou a ter independência operacional mínima.
Por que isso importa? Porque a Nigéria é o termômetro da África Ocidental. Se as reformas de Tinubu prosperarem, o efeito demonstração pode incentivar outros países da região — inclusive os de língua portuguesa, como São Tomé e Príncipe e Cabo Verde — a abandonarem o velho receituário estatizante. Se fracassarem, o continente estará condenado a mais uma década de estagnação e dependência de ajuda externa. O secretário do Afenifere, citado pela imprensa nigeriana, foi enfático: "As dores são reais, mas a alternativa é o colapso fiscal total".
A análise FORTIS é a seguinte: o que Tinubu está fazendo é exatamente o que o Estado brasileiro, latino-americano e europeu se recusa a fazer — cortar privilégios, eliminar subsídios perversos e devolver ao mercado o papel de alocar recursos. O governo nigeriano está gastando mal há décadas, tributando demais uma economia informal que não consegue ser formalizada e entregando pouco em infraestrutura, saúde e educação. As reformas de Tinubu, embora imperfeitas, atacam a raiz do problema: o Estado capturado por interesses rentistas.
É claro que há riscos. A inflação de alimentos e energia pode provocar convulsão social. A falta de uma rede de proteção social robusta — algo que o liberalismo clássico nunca negligenciou, ao contrário do que dizem os críticos de plantão — é uma lacuna que precisa ser preenchida com urgência. Além disso, a corrupção estrutural não desaparece por decreto. Mas o que os adversários das reformas propõem? Voltar ao modelo anterior, com câmbio artificialmente valorizado, filas nos postos de gasolina e um Estado falido que imprime moeda para financiar seu próprio esgotamento? Essa é a receita do desastre.
O contraponto: críticos à esquerda argumentam que as reformas de Tinubu são um presente ao FMI e aos credores internacionais. A acusação é parcialmente verdadeira — o país renegociou dívidas e busca novos empréstimos. Mas a verdade factual é que a Nigéria não tem mais espaço fiscal para manter o status quo. A diferença entre ajuste fiscal e austeridade ideológica é que o primeiro busca equilíbrio para crescer, enquanto a segunda apenas corta gastos sem reformar o Estado. Tinubu, até agora, tem feito o primeiro — com todas as imperfeições de um processo político conturbado.
Os dados oficiais do National Bureau of Statistics indicam que o PIB nigeriano cresceu 2,98% no segundo trimestre de 2024, acima das projeções iniciais, impulsionado por serviços e agricultura. O setor de petróleo, embora ainda relevante, deixou de ser o único motor. Isso é um sinal de que a diversificação econômica, tão falada quanto raramente praticada, começa a sair do papel. O investimento estrangeiro direto, embora tímido, voltou a demonstrar interesse em setores como energia solar e agronegócio.
Para o Brasil, a lição é direta: enquanto o governo Lula insiste em expandir gastos públicos, criar novos impostos e intervir nos preços dos combustíveis, a Nigéria — um país com problemas estruturais muito maiores — está fazendo o dever de casa liberal. Se os nigerianos conseguirem sustentar o ajuste, serão um exemplo incômodo para o populismo latino-americano. O caminho é estreito, mas existe. E Tinubu, ao que tudo indica, está disposto a percorrê-lo.
Por Renan Filho · 2026-09-22