A Nigéria, maior economia da África, ocupa o triste posto de um dos países com os piores indicadores de saúde pública do continente. E o desabafo do renomado videomaker TG Omori, que comanda clipes de estrelas do afrobeats, escancarou o cálculo cruel que milhões de nigerianos enfrentam diariamente: a vida, quando depende de tratamento contínuo, tem um preço que o Estado não cobre — nem de longe. Em publicação nas redes sociais, Omori detalhou a batalha contra a insuficiência renal, revelando que uma única sessão de diálise custa cerca de 50.000 nairas (aproximadamente R$ 330). O salário mínimo nacional, por outro lado, é de 30.000 nairas por mês. A matemática é brutal: não há renda que sustente dois tratamentos semanais, o mínimo necessário para estabilizar um paciente crítico.
O caso de Omori, que usou seus stories para pedir ajuda e alertar sobre a necessidade de diagnóstico precoce, teve repercussão imediata. Celebridades e fãs se mobilizaram em vaquinhas, mas a comoção individual não muda o fato estrutural: a Nigéria gasta menos de 4% do seu PIB em saúde, segundo dados da Organização Mundial da Saúde, enquanto países como o Brasil — que também enfrenta crises sanitárias — destinam cerca de 10%. A diferença não está na falta de recursos, mas na prioridade política. O governo nigeriano, historicamente marcado pela corrupção e pela má gestão, insiste em subsidiar energia e combustíveis para segmentos específicos, enquanto hospitais públicos carecem de equipamentos básicos. É o retrato do estado mínimo na prática, mas não do jeito que os liberais pregam: ineficiência e clientelismo, não liberdade econômica.
Por que isso importa? Porque a história de TG Omori não é uma exceção, é uma regra que atinge a classe média emergente do país. O videomaker, que construiu uma carreira de sucesso em um dos setores mais dinâmicos da economia nigeriana — a indústria criativa —, descobriu que o sucesso profissional não o protege de um sistema de saúde colapsado. Se uma celebridade com acesso a networking e renda acima da média precisa apelar publicamente por ajuda financeira, a realidade do trabalhador comum é a morte anunciada. Esse é o retrato de um modelo onde o Estado falha em sua função primária: garantir o direito à vida. Em vez de priorizar saneamento básico, prevenção de doenças renais (muitas vezes causadas por hipertensão não tratada) e infraestrutura hospitalar, o governo de Lagos e as esferas federais preferem inflar a máquina pública com cargos e contratos superfaturados.
A análise FORTIS é direta: não há solução para a crise de saúde nigeriana sem reforma econômica profunda. A dependência excessiva do petróleo, a corrupção endêmica e a ausência de políticas pró-mercado que incentivem investimento privado em hospitais e planos de saúde acessíveis condenam a população a um ciclo de precariedade. Enquanto isso, a alternativa real ao SUS nigeriano — o sistema público local — é um campo minado de faltas de medicamentos, greves de médicos (o sindicato da categoria paralisou serviços em 2023 por falta de pagamento de adicionais) e filas intermináveis. O setor privado, que poderia preencher a lacuna, é sufocado por impostos e burocracia, tornando o atendimento de qualidade um luxo restrito a uma elite minúscula. A solução passa por desonerar a cadeia de saúde, abrir espaço para competição e, acima de tudo, criar um ambiente de negócios que gere riqueza real.
Contraponto: os defensores do atual modelo nigeriano argumentam que a saúde é uma responsabilidade intransferível do Estado e que a privatização aprofundaria as desigualdades. É um argumento emocionalmente atraente, mas factualmente fraco. Países como a Coreia do Sul e Singapura — que combinaram sistemas públicos robustos com forte participação privada e crescimento econômico — alcançaram índices de saúde invejáveis. O problema da Nigéria não é a participação privada, é a completa inexistência de uma política pública de longo prazo. Não há incentivo fiscal para que hospitais privados invistam em cidades secundárias; não há regulação inteligente que reduza o custo de medicamentos importados; não há combate efetivo à corrupção que desvia verba de insumos. Enquanto o Estado nigeriano tratar a saúde como um bônus e não como prioridade, casos como o de TG Omori serão repetidos à exaustão.
O drama do videomaker, portanto, deve servir como um alerta, não apenas para a Nigéria, mas para toda a África. A soberania nacional que tanto se prega não pode se resumir a discursos anticoloniais; ela exige gestão fiscal responsável, instituições previsíveis e um Estado que realmente proteja seus cidadãos. O desabafo de Omori, feito em tom de desespero, é um manifesto pela eficiência — algo que o coletivismo dominante no continente teima em ignorar. Aos liberais, a lição é clara: sem crescimento econômico sustentado, não há recursos para a saúde. E sem mercado livre, o crescimento é apenas uma miragem estatística.
Por Renan Filho · 2026-09-24