O mercado monetário nigeriano experimentou uma queda acentuada nas taxas de juros overnight após a liquidez no sistema bancário atingir o patamar recorde de N7,45 trilhões, segundo dados divulgados pela FMDQ Securities Exchange na segunda-feira (23). A taxa overnight interbancária, referência para operações de curtíssimo prazo, recuou de 18,5% para 14,2% na semana passada, enquanto a taxa overnight indexada (O/N) caiu para 13,8%.
A forte alta da liquidez foi impulsionada por pagamentos do Tesouro Nacional nigeriano a fornecedores e servidores públicos, combinados com recompras de títulos do governo feitas pelo Banco Central da Nigéria (CBN) no âmbito de sua política de gestão de liquidez. De acordo com o relatório semanal do CBN, os depósitos bancários compulsórios e os saldos em conta corrente dos bancos comerciais no banco central aumentaram substancialmente, liberando recursos para o mercado interbancário.
Para analistas de mercado, a queda das taxas representa um alívio temporário para bancos e empresas que dependem de financiamento de curto prazo. O custo do dinheiro overnight é um termômetro importante para a economia real: taxas elevadas encarecem o capital de giro e desestimulam o investimento produtivo. A redução, portanto, é bem-vinda em um cenário de juros básicos ainda altos — a taxa Selic nigeriana (MPR) permanece em 26,75% ao ano, após um ciclo de aperto monetário que visava conter a inflação.
Por que a alta da liquidez não resolve o problema estrutural da Nigéria?
A injeção de N7,45 trilhões na economia, no entanto, não é necessariamente uma boa notícia no longo prazo. Do ponto de vista liberal-conservador que orienta a cobertura da FORTIS NEWS, o aumento da base monetária sem contrapartida no aumento da produção de bens e serviços tende a gerar pressões inflacionárias adiante. A Nigéria já enfrenta uma inflação anual acima de 30%, corroendo o poder de compra da população e reduzindo os ganhos reais de qualquer crescimento nominal.
O governo do presidente Bola Tinubu, embora tenha implementado reformas de mercado na eliminação de subsídios e na unificação cambial, ainda depende fortemente de gastos públicos para estimular a atividade econômica. A expansão da liquidez via Tesouro, embora alivie o mercado de crédito no curto prazo, é essencialmente uma política de emissão monetária disfarçada. Como ensina a Escola Austríaca, o dinheiro novo injetado na economia distorce os preços relativos e gera ciclos de boom e busto.
Análise FORTIS: livre mercado ou intervenção estatal?
O CBN, sob a gestão do governador Olayemi Cardoso, tem adotado uma postura de maior independência e transparência, com foco no controle da inflação. As operações de recompra de títulos (repo) são instrumentos clássicos de política monetária para ajustar a liquidez diária. No entanto, quando combinadas com os gastos fiscais expansionistas do governo, criam um paradoxo: o banco central aperta a política monetária (juros altos) enquanto o Tesouro expande a base monetária via gastos.
Para um liberal, a solução passa pela redução do tamanho do Estado. Menos gastos públicos significam menor necessidade de emissão e, portanto, taxas de juros mais baixas e estáveis, não dependentes de injeções artificiais de liquidez. Enquanto isso não ocorrer, o alívio nas taxas interbancárias será apenas um paliativo.
Contraponto: a visão dos defensores da política atual, no entanto, argumenta que a injeção de recursos é necessária para compensar a contração do crédito privado e evitar uma recessão mais profunda. Em declaração à imprensa na última sexta-feira, o secretário-executivo do Ministério das Finanças, Okonjo Obaseki, afirmou que “o aumento da liquidez é uma resposta coordenada para garantir que o sistema bancário tenha capacidade de financiar a retomada do crescimento”. Para ele, o governo está “corrigindo desequilíbrios herdados” e as medidas são temporárias.
Por Renan Filho · 2026-09-24