O sultão de Sokoto, Muhammad Sa’ad Abubakar, líder espiritual dos muçulmanos na Nigéria, fez um duro alerta aos políticos do país nesta quarta-feira (23): “Não patrocinem peregrinos com dinheiro roubado”. A declaração foi proferida durante a abertura de uma conferência sobre transparência na administração pública, em Abuja, e repercutiu imediatamente na imprensa nigeriana.
Segundo o sultão, que é também presidente do Conselho Supremo de Assuntos Islâmicos da Nigéria, muitos políticos utilizam verbas desviadas dos cofres estaduais ou federais para bancar a ida de eleitores ou aliados à peregrinação a Meca (Hajj) e à Umrah, como forma de comprar lealdade política e ostentar poder. “Essas peregrinações são um ato de devoção a Alá, não uma ferramenta de campanha financiada com o suor do povo”, afirmou Abubakar, em trecho reproduzido pelo jornal local Premium Times.
O contexto nigeriano é grave. O país, maior economia da África, ocupa a 150ª posição no Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional (2024) – atrás de nações como Etiópia e Zâmbia. Dados da Comissão de Crimes Econômicos e Financeiros (EFCC) indicam que, só em 2025, foram recuperados aproximadamente 120 bilhões de nairas (cerca de R$ 4,8 bilhões) em recursos desviados de programas sociais e de infraestrutura. Grande parte desse montante teria sido usado para financiar viagens religiosas de políticos e seus cabos eleitorais.
Por que isso importa? A peregrinação anual a Meca é um dos cinco pilares do Islã, mas a Nigéria gasta bilhões de nairas em subsídios estatais para o Hajj, enquanto hospitais públicos carecem de medicamentos básicos e estradas se desfazem. Em 2024, o governo federal destinou 90 bilhões de nairas (R$ 3,6 bilhões) para subsidiar as passagens aéreas e a hospedagem de peregrinos oficiais – valor que excede o orçamento do Ministério da Saúde. A fala do sultão expõe o paradoxo: o mesmo Estado que tributa pesadamente o cidadão comum é incapaz de garantir serviços essenciais, mas encontra recursos para bancar viagens religiosas de uma elite política corrupta.
Análise FORTIS: O recado do sultão é moralmente inquestionável, mas a pergunta que fica é: como impedir que políticos continuem usando o dinheiro do contribuinte para financiar o clientelismo religioso? A resposta liberal-conservadora passa por, primeiro, reduzir o tamanho do Estado nigeriano e eliminar subsídios discricionários. O governo federal não deveria estar no negócio de peregrinações – isso cabe à iniciativa privada e à caridade voluntária. Se não houver fundos públicos para desviar, a corrupção perde o combustível. O sultão acerta ao clamar por moralidade, mas a solução estrutural é enxugar a máquina estatal e fortalecer a transparência fiscal.
Contraponto: Vozes progressistas nigerianas argumentam que o Estado tem o dever de facilitar a peregrinação para muçulmanos de baixa renda, como forma de garantir a liberdade religiosa. No entanto, os dados mostram que os maiores beneficiários dos subsídios não são os pobres, mas sim políticos, empresários aliados e parentes de burocratas. Um relatório da organização anticorrupção HEDA (Human and Environmental Development Agenda), de 2023, revelou que 68% dos peregrinos subsidiados pelo governo do estado de Kano tinham vínculos diretos com o partido governista local. O argumento da “inclusão religiosa” é na prática uma cortina de fumaça para o saque aos cofres públicos.
O sultão de Sokoto, figura de enorme influência moral e política, não é um mero crítico de ocasião. Há décadas ele denuncia a corrupção que corrói a Nigéria, país que alterna governantes civis e militares há mais de 60 anos. Sua fala ecoa a de outros líderes religiosos, como o papa Francisco, que em 2024 pediu transparência no uso de donativos para o Vaticano. Mas a diferença é que, na Nigéria, a corrupção não é exceção – é o sistema.
Por Renan Filho · 2026-09-23