A Associação de Sucateiros da Nigéria (ANSD, na sigla em inglês) e a Associação de Recicladores de Metais do país emitiram, nesta quarta-feira, um ultimato conjunto aos governos de Lagos, Ogun, Rivers e Kano. O grupo alega que a combinação de tabelamento de preços impostos por governos locais e a cobrança de taxas estaduais abusivas reduziu a margem de lucro do setor a praticamente zero.
Em comunicado oficial publicado nas redes sociais, as entidades afirmam que a decisão de paralisar as atividades foi tomada após sucessivas tentativas de diálogo com as autoridades estaduais. “Não podemos continuar operando com prejuízo. O governo fixa o preço máximo que podemos pagar pelo sucata, mas não controla o custo do diesel, do transporte e as dezenas de taxas que nos são impostas”, diz o texto.
O setor de sucata na Nigéria movimenta cerca de 3,2 bilhões de dólares por ano, segundo dados da Câmara de Comércio da Nigéria. Estima-se que o país recicle mais de 70% de seu aço via sucata, um dos índices mais altos da África. O problema, no entanto, é que boa parte dessa cadeia opera na informalidade devido à carga tributária excessiva e à burocracia estadual.
Por que isso importa: a paralisação dos sucateiros pode interromper o fornecimento de matéria-prima para siderúrgicas e fundições em todo o país, afetando a construção civil, a indústria automotiva e até a produção de ferramentas agrícolas. Em um momento em que a Nigéria tenta reduzir a dependência de importação de aço, desorganizar a coleta de sucata é atirar no próprio pé.
Análise FORTIS: O caso expõe um padrão clássico do intervencionismo estadual africano — e que o Brasil conhece bem. Governos estaduais nigerianos, sob o argumento de “proteger o consumidor” ou “controlar a inflação”, tabelam o preço da sucata. O resultado é o oposto do desejado: com margens esmagadas, o sucateiro deixa de coletar, a sucata se acumula em ferros-velhos clandestinos ou é vendida no mercado paralelo, e a indústria formal paga mais caro pelo aço importado.
O economista nigeriano Adewale Ogunleye, em artigo publicado no jornal Business Day Lagos, aponta que “a fixação de preços máximos para sucata em estados como Lagos e Rivers não reduziu o custo final do aço para a indústria; apenas transferiu o ônus para o elo mais fraco da cadeia, que é o coletor informal”. Dados oficiais do National Bureau of Statistics (NBS) mostram que o preço do aço laminado subiu 18% nos últimos 12 meses, enquanto o preço da sucata tabelado caiu 12% no mesmo período.
Contraponto: os governos estaduais, por sua vez, argumentam que o tabelamento evita que grandes compradores estrangeiros — especialmente chineses — pressionem os preços para baixo, explorando sucateiros locais. Em declaração à imprensa local, o comissário de Meio Ambiente do estado de Lagos, Tokunbo Wahab, afirmou que “o governo não pode permitir que o setor seja dominado por cartéis que pagam valores irrisórios aos catadores”. A crítica é legítima, mas a solução proposta — tabelar o preço — historicamente falha em todos os países onde foi tentada, como Brasil, Índia e Indonésia.
A verdade factual: não há evidência de que o tabelamento tenha protegido os catadores nigerianos. Um levantamento da ONG BudgIT, especializada em transparência fiscal, mostra que a renda média dos sucateiros informais nos estados com tabelamento caiu 8% em termos reais nos últimos dois anos, enquanto a arrecadação de taxas estaduais sobre o setor cresceu 22%. Ou seja: o Estado aperta o cerco, mas não entrega proteção real ao trabalhador.
O FORTIS NEWS apurou que a paralisação, se confirmada, deve começar na segunda quinzena de outubro, caso os governos estaduais não revoguem as portarias de tabelamento e simplifiquem o sistema de licenciamento. As associações do setor pedem ainda a criação de um marco regulatório federal único, que substitua a colcha de retalhos de regras estaduais.
Por Renan Filho · 2026-09-25