“I never know what I’ll say on stage.” A frase, dita pelo músico nigeriano Segun Johnson em um show recente, pode parecer apenas uma observação sobre a espontaneidade da performance ao vivo. Mas, no contexto da Nigéria de 2026, tem peso de manifesto.
O país africano, maior economia do continente, enfrenta uma escalada de intervenção governamental no campo cultural. Leis como a que criminaliza a “blasfêmia” e o código penal que permite a prisão de artistas por supostas ofensas ao governo transformaram o palco em um campo minado. Johnson, ao admitir que improvisa, coloca-se deliberadamente fora do roteiro aprovado pelo Estado.
Para a ótica liberal-conservadora, o episódio é uma ilustração perfeita do conflito entre o indivíduo criador e o Leviatã. O artista que não se submete a scripts pré-aprovados está, na prática, exercendo sua soberania pessoal. O livre mercado de ideias — inclusive as irreverentes, incômodas ou politicamente incorretas — é o motor da inovação cultural e, em última instância, do desenvolvimento econômico.
A Nigéria gasta mal seus recursos, tributa excessivamente uma economia já frágil e entrega pouco em contrapartida. O setor cultural, vibrante e responsável por gerar milhões de empregos informais, é sufocado por licenças, taxas e ameaças de censura. Em vez de incentivar a criatividade, o Estado prefere controlá-la. A declaração de Johnson expõe essa tensão de forma crua: ele não sabe o que dirá, mas sabe que quer a liberdade de dizê-lo.
Críticos do improviso argumentam que, sem controle, um artista pode proferir discursos de ódio ou incitar violência. É uma preocupação legítima, mas que não justifica a censura prévia. O remédio liberal para o discurso nocivo é mais discurso, não a mordaça. As leis nigerianas contra incitação já existem; aplicá-las após o fato, com devido processo legal, é muito diferente de exigir um roteiro aprovado antes de subir ao palco.
A FORTIS não defende que todo improviso seja isento de consequências. Defende, sim, que a criatividade individual não deve ser tutelada pelo Estado. Segun Johnson, ao afirmar que não sabe o que dirá, reivindica exatamente isso: o direito de ser imprevisível. E, num país onde a previsibilidade é frequentemente imposta pela força, ser imprevisível é um ato político.
É preciso lembrar que a liberdade artística não é um privilégio concedido pelo governo, mas um direito inerente ao ser humano. Quando o Estado decide o que pode ser dito ou cantado, estamos diante de uma sociedade empobrecida — não só culturalmente, mas também moral e economicamente. A Nigéria precisa de menos regulação e mais confiança no talento de seu povo.
Por Renan Filho · 2026-09-25