A Redeemed Christian Church of God (RCCG), uma das maiores denominações evangélicas do mundo, com forte presença na Nigéria e na diáspora africana, anunciou oficialmente o início da repatriação de 500 nigerianos residentes na África do Sul. O anúncio foi feito pelo pastor nacional da RCCG na África do Sul, James Ojo, em publicação nas redes sociais da igreja na última terça-feira, 23 de setembro.
Segundo a nota, o processo será coordenado em parceria com autoridades consulares nigerianas e a Missão da Nigéria em Pretória. A iniciativa não é inédita — a RCCG já realizou operações semelhantes em 2019 e 2021, repatriando centenas de fiéis que enfrentavam dificuldades econômicas e perseguição xenófoba no país sul-africano.
A decisão ocorre num contexto de escalada da violência contra estrangeiros na África do Sul. Desde o início de setembro, ao menos 12 pessoas morreram em ataques atribuídos a grupos xenófobos nas províncias de Gauteng e KwaZulu-Natal. Dados do Instituto Sul-Africano de Relações Raciais indicam que, entre 2020 e 2025, mais de 80 mil imigrantes deixaram o país voluntariamente ou foram deportados, muitos deles nigerianos.
Por que isso importa
A repatriação organizada por uma igreja evangélica, e não pelo Estado nigeriano, expõe uma realidade incômoda para governos africanos: a incapacidade de proteger seus cidadãos no exterior e de oferecer condições mínimas de retorno digno. A RCCG, com seu enorme patrimônio e arrecadação — estimada em mais de US$ 50 milhões anuais apenas na África do Sul —, acaba substituindo o poder público, que frequentemente falha em prestar assistência consular básica.
Para o liberal-conservador, o caso ilustra o princípio da subsidiariedade: quando o Estado falha, a sociedade civil organizada — especialmente instituições religiosas — assume o papel. O problema é que essa solução paliativa não resolve a raiz do problema: a má gestão econômica e a corrupção sistêmica que forçam milhões de nigerianos a emigrar.
Análise FORTIS
A RCCG é um exemplo clássico de instituição que prospera em ambientes de Estado mínimo, mas que acaba sendo sobrecarregada por demandas que deveriam ser do governo. A igreja opera escolas, hospitais e programas de assistência social em diversos países africanos, muitas vezes com mais eficiência que as burocracias estatais. No entanto, a repatriação de 500 pessoas — por mais louvável que seja — é um band-aid num sistema que sangra.
Dados oficiais do Banco Mundial mostram que a Nigéria tem a maior diáspora da África subsaariana, com mais de 17 milhões de nigerianos vivendo fora do país. As remessas enviadas por esses trabalhadores somaram US$ 21,5 bilhões em 2025, valor superior à arrecadação total do governo nigeriano com impostos sobre petróleo. O país exporta gente porque não consegue gerar oportunidades internas.
A África do Sul, por sua vez, enfrenta um desemprego oficial de 33,5% (dados do Statistics South Africa, segundo trimestre de 2026). A xenofobia cresce alimentada por discursos políticos que culpam imigrantes pela falta de empregos e serviços públicos precários. É um ciclo vicioso: governos corruptos e ineficientes geram emigração; emigração gera tensão social; tensão social gera violência; violência gera repatriação.
Contraponto
Defensores de políticas migratórias mais restritivas na África do Sul argumentam que a imigração ilegal — estimada em 3 a 5 milhões de pessoas — sobrecarrega um sistema de saúde e educação já falido. O governo sul-africano gasta 6,2% do PIB com educação, mas ocupa a 138ª posição no ranking global de qualidade educacional (PISA 2025). Não é culpa dos imigrantes, mas a narrativa populista encontra terreno fértil.
Já críticos da atuação da RCCG apontam que a igreja, ao repatriar apenas membros de sua denominação, cria um precedente de assistência seletiva. A pergunta que fica: o que acontece com os milhares de nigerianos que não são evangélicos ou que não têm vínculo com a RCCG? A resposta é trágica: ficam à mercê de governos que pouco fazem.
Por Renan Filho · 2026-09-24