A polícia do estado de Jigawa, na Nigéria, anunciou a prisão de suspeitos envolvidos no assassinato de nove pessoas — oito homens e uma mulher — em ataques ocorridos entre agosto e setembro de 2026. O crime, que chocou o país, foi motivado pelo roubo de bicicletas, veículo essencial para locomoção em áreas rurais da região. Segundo a polícia, os suspeitos agiam em grupo, atacando vítimas em estradas vicinais e povoados isolados, onde a presença do Estado é praticamente nula.
O comandante da polícia de Jigawa, Ahmadu Abdullahi, confirmou as prisões em publicação nas redes sociais da corporação no dia 22 de setembro de 2026. Segundo ele, os suspeitos confessaram os crimes e levaram os agentes aos locais onde os corpos foram enterrados. As investigações revelaram que as bicicletas roubadas eram vendidas em mercados informais por valores que variam entre 10 mil e 30 mil nairas (cerca de R$ 80 a R$ 240). A motivação banal do crime — um bem de baixo valor — escancara a fragilidade do tecido social e a ausência de políticas públicas eficazes de segurança e desenvolvimento.
O caso ocorre em um contexto de crise econômica e social na Nigéria, país que, apesar de ser o maior produtor de petróleo da África, sofre com inflação alta, desemprego juvenil e infraestrutura precária. O governo federal, sob o presidente Bola Tinubu, implementou reformas de livre mercado, como o fim dos subsídios aos combustíveis e a unificação das taxas de câmbio, mas os resultados ainda não chegaram às camadas mais pobres. Em Jigawa, um dos estados mais pobres do país, a renda per capita é inferior a US$ 1.000 por ano, e o acesso a transporte motorizado é restrito a uma minoria.
Por que isso importa para o leitor do FORTIS? O caso ilustra o dilema do liberal-conservadorismo na periferia do capitalismo. A defesa do livre mercado e do Estado mínimo é válida quando há instituições sólidas, segurança jurídica e um ambiente de negócios que gere empregos formais. Na Nigéria, o Estado mínimo não é uma escolha ideológica, mas uma realidade imposta pela corrupção, pela má gestão e pela falta de capilaridade estatal. O governo de Tinubu, embora tenha acertado ao eliminar distorções econômicas, falhou em criar uma rede de proteção social e segurança pública que evitasse que uma bicicleta se tornasse motivo de morte.
A análise FORTIS: O liberal-conservadorismo não pode ser confundido com Estado omisso. Na tradição de Adam Smith, o Estado deve prover segurança, justiça e obras públicas — os três deveres do soberano. Na Nigéria, o Estado falha nos três. A polícia de Jigawa, com efetivo insuficiente e salários atrasados, não consegue patrulhar as áreas rurais. O sistema judiciário é lento e corrupto. E as obras públicas, como estradas e iluminação, são precárias. O resultado é que cidadãos são mortos por bicicletas. A solução não é aumentar impostos sobre os já pobres, mas sim cortar gastos com a máquina pública inchada e redirecionar recursos para segurança e infraestrutura.
Contraponto: Críticos do governo Tinubu apontam que as reformas de livre mercado, sem contrapartidas sociais, agravam a desigualdade. O fim dos subsídios aos combustíveis, por exemplo, elevou o custo de vida e reduziu o poder de compra das famílias. Embora a medida seja correta do ponto de vista fiscal — os subsídios consumiam bilhões de dólares por ano sem beneficiar os pobres —, a falta de políticas compensatórias, como programas de transferência de renda e investimento em transporte público, deixou a população mais vulnerável. O FORTIS reconhece o mérito das reformas, mas alerta: liberalismo econômico sem Estado de Direito e segurança pública é anarquia, não liberdade.
Por Renan Filho · 2026-09-24