O Estado de Plateau, no centro da Nigéria, voltou a ser palco de violência e protesto. Na manhã da última terça-feira (23), centenas de mulheres bloquearam a rodovia federal Jos-Abuja, na altura da cidade de Bokkos, para exigir justiça pela morte de três vigilantes comunitários. Os corpos dos homens — identificados como membros de um grupo de autodefesa local — foram encontrados com marcas de tortura e tiros à queima-roupa, segundo relatos de líderes tradicionais da região.
O bloqueio durou mais de seis horas e só foi desfeito após a intervenção de comandantes militares e promessas de investigação. As mulheres carregavam cartazes com frases como "Nossos filhos não são animais" e "Chega de sangue inocente". O protesto expõe uma realidade brutal: a ausência crônica do Estado nigeriano na segurança das zonas rurais empurra comunidades inteiras para o que se pode chamar de "justiça de fronteira".
Por que isso importa: a Nigéria, maior economia da África, enfrenta uma crise de segurança multifacetada. Enquanto o governo federal em Abuja gasta bilhões de nairas em subsídios e burocracia, as áreas rurais de Plateau, Kaduna e Benue são abandonadas a milícias, bandos armados e conflitos entre pastores e agricultores. Os vigilantes mortos não eram policiais nem agentes do Estado; eram cidadãos armados, muitas vezes com espingardas de caça, que assumiram o papel que o governo nunca cumpriu.
Análise FORTIS: o caso de Plateau ilustra perfeitamente o custo humano de um Estado inchado e ineficiente. O governo nigeriano gasta aproximadamente 25% de seu PIB em despesas do setor público, mas a segurança rural é quase inexistente. As forças policiais e militares estão concentradas em áreas urbanas e em proteger a elite política. Enquanto isso, comunidades como Bokkos são obrigadas a pagar do próprio bolso por vigilantes privados — e quando esses vigilantes morrem, o Estado responde com promessas vazias. O protesto das mulheres não é contra o crime; é contra a ausência de um contrato social que deveria garantir a proteção básica.
A narrativa de que "a violência é culpa do colonialismo" ou "da desigualdade global" não explica por que o governo nigeriano continua a tributar um dos setores mais produtivos do país (petróleo) e a redistribuir para subsídios políticos e não para segurança pública. A verdade é que, enquanto o Estado falha, as tribos, clãs e grupos comunitários assumem. O problema é que essa "justiça privada" é frágil, sujeita a vinganças intermináveis e sem supervisão legal.
Contraponto: defensores do governo local argumentam que o presidente Bola Tinubu herdou uma máquina estatal quebrada e que, desde 2023, houve aumento do orçamento para as forças de segurança federais. Também apontam que o estado de Plateau recebeu reforço de tropas do exército em 2024. No entanto, os dados oficiais do Instituto Nigeriano de Estatística mostram que a sensação de insegurança nas zonas rurais subiu de 63% em 2022 para 78% em 2025. A população não sente os efeitos desses recursos. Como disse um líder comunitário de Bokkos à AFP: "O dinheiro vai para Abuja, mas os bandidos vêm para nossas casas".
O governo de Plateau anunciou a criação de um fundo de compensação para as famílias das vítimas, mas o valor — 500 mil nairas (cerca de 3 mil reais) — é insuficiente para cobrir funerais ou sustentar famílias que perderam seu provedor. As mulheres do protesto exigem ação concreta: patrulhas regulares, iluminação pública e, principalmente, o desarmamento dos bandos que atuam na região. Até agora, nenhuma medida foi anunciada.
Por Renan Filho · 2026-09-25