“Ver meu pai desabar em lágrimas por minha condição foi devastador”, disse Chidera Okonkwo, 24 anos, a um repórter do jornal nigeriano The Punch, na semana passada. Chidera, ex-mecânico de motos em Onitsha, estado de Anambra, teve a perna direita amputada após uma infecção decorrente de um corte mal tratado. O que deveria ser um incidente menor se transformou em um drama familiar que chocou a comunidade local. Seu pai, Emeka Okonkwo, agricultor de 52 anos, não conteve as lágrimas ao visitá-lo no Hospital Universitário de Nsukka.
O caso de Chidera não é isolado. A Nigéria, maior economia da África, convive com um sistema de saúde pública que é crônico em subfinanciamento e má gestão. Dados do Banco Mundial indicam que o país gasta apenas 3,9% do PIB em saúde, bem abaixo da média de 5,4% dos países da África Subsaariana. Mas o problema não é apenas de volume — é de eficiência. Estima-se que 70% dos gastos com saúde na Nigéria são feitos diretamente pelos cidadãos, em clínicas e farmácias privadas, porque o Estado simplesmente não entrega os serviços básicos. O resultado é que doenças tratáveis, como infecções bacterianas, diabetes mal controlado ou acidentes domésticos, viram sentenças de amputação ou morte.
Por que isso importa? A história de Chidera é uma parábola da tragédia do Estado máximo. O governo nigeriano arrecada pesados impostos sobre combustíveis, telecomunicações e importações — o IVA foi elevado para 7,5% em 2020 — mas o retorno para a população é pífio. Hospitais públicos faltam equipamentos, médicos e até mesmo luvas cirúrgicas. Enquanto isso, a burocracia para autorizar procedimentos simples consome semanas. Chidera esperou 11 dias por uma cirurgia que, se feita a tempo, teria salvado sua perna. Quando finalmente foi operado, a infecção já havia se espalhado. O pai, que vendeu uma vaca e pediu emprestado a parentes para custear os medicamentos, não conseguiu evitar o pior.
Análise FORTIS: O Estado falhou, o mercado não Do ponto de vista liberal-conservador, o caso expõe a falência do modelo estatista importado para a África. Em vez de priorizar a liberdade econômica — que permitiria a proliferação de clínicas particulares competitivas, seguros de saúde acessíveis e incentivos à prevenção —, os governos nigerianos sucessivos multiplicaram regulações e impostos que encarecem a vida. O setor de saúde privado, que responde por cerca de 60% dos atendimentos, é sufocado por tributos e licenças. Em países como o Quênia, onde reformas liberalizantes foram feitas nos anos 1990, o acesso a hospitais privados cresceu e a mortalidade por causas evitáveis caiu. Já a Nigéria, rica em petróleo, mantém uma máquina estatal que consome 80% da receita federal, mas gera infraestrutura precária. Os 20% restantes são insuficientes para saúde, educação e estradas.
A cena do pai aos prantos é o rosto humano de um fracasso sistêmico. Não se trata de falta de recursos — a Nigéria possui uma das maiores economias do continente. Trata-se de prioridades e de uma cultura política que trata o cidadão como súdito. Enquanto o governo se preocupa em controlar preços e subsidiar gasolina para a elite de Lagos, os pobres do interior esperam cirurgias em macas enferrujadas.
Contraponto: O governo não é o único culpado É justo reconhecer que a Nigéria enfrenta desafios históricos: corrupção endêmica, conflitos étnicos e uma infraestrutura colonial deficiente. O atual presidente Bola Tinubu anunciou um plano de reformas no setor de saúde, com investimentos em hospitais regionais e telemedicina. Alguns governos estaduais, como o de Lagos, têm feito parcerias público-privadas que melhoraram o atendimento. Críticos apontam que isentar o Estado de sua responsabilidade e deixar tudo para o mercado poderia agravar a desigualdade, deixando pobres ainda mais desassistidos. O pai de Chidera, por exemplo, não teria condições de pagar um plano de saúde privado — que custa em média 200 dólares por mês numa economia onde a renda per capita é de 2.000 dólares ao ano.
No entanto, a objeção ignora o óbvio: o Estado já falhou. A saída não é mais Estado, mas um Estado menor e mais eficiente, combinado com liberdade para empreendedores, cooperativas e organizações religiosas que já atuam onde o governo não chega. Igrejas e ONGs locais mantêm postos de saúde que salvam vidas com custos reduzidos. Em vez de tributar e regular até sufocar, o governo deveria desburocratizar e reduzir impostos para estimular a oferta de serviços. A verdade factual é que nenhum país se desenvolveu com saúde pública universal e gratuita antes de ter um setor privado robusto — nem o Brasil, que hoje gasta 10% do PIB em saúde com resultados medíocres.
Por Renan Filho · 2026-09-25